Читать книгу Arena Um: Traficantes De Escravos - Морган Райс, Morgan Rice - Страница 8

I
DOIS

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Quando cheguei à casa de meu pai, o sol estava se pondo, a temperatura caía e a neve começava a endurecer, quebrando sob meus pés. Sai da floresta e avistei nossa casa ali, visivelmente situada ao lado da estrada e me senti aliviada, pois ela parecia tranquila, exatamente como a deixei. Eu imediatamente procuro por pegadas na neve – ou sinais de animais- saindo ou entrando e não encontro nada.

Não há nenhuma luz no interior da casa, mas isto é o normal. Eu ficaria preocupada se houvesse. Não temos eletricidade, então luzes significariam apenas que Bree acendeu velas – e ela não o deveria fazer sem mim. Eu paro e escuto por vários minutos, está tudo quieto. Não há ruídos de lutas, pedidos por socorro nem gemidos por doenças. Dou um suspiro de alívio.

Uma parte de mim sempre teme que, ao retornar, eu encontre a porta aberta, as janelas quebradas, pegadas entrando na casa e Bree desaparecida. Já tive esse pesadelo inúmeras vezes e sempre acordo suando, então ando para o outro quarto e me certifico de que ela ainda está lá. E ela sempre está, segura e a salvo, e eu me repreendo por isso. Sei que eu deveria parar de me preocupar tanto, após todos esses anos. Mas, por algum motivo, não consigo evitar: toda vez que preciso deixar Bree sozinha, é como se apunhalassem uma faca em meu coração.

Ainda atenta, analisando tudo o que me rodeia, examino nossa casa sob a luz do dia, que vai enfraquecendo. Honestamente, essa casa nunca foi boa pra começo de conversa. Um típico rancho de montanha, uma caixa retangular sem nenhum detalhe, enfeitada com revestimento de vinil de piscina, que parecia velho desde o primeiro dia e agora parece simplesmente deteriorado. As janelas são pequenas e escassas e feitas de plástico barato. Parecem aquelas de trailers. Talvez tenha uns 4,5m de largura por uns 9m de profundidade, ela deveria ter apenas um quarto, mas, quem quer que a tenha construído, com sua mente brilhante, a fez com dois quartos pequenos e uma sala de estar menor ainda.

Lembro-me de visitá-la quando criança, antes da guerra, quando o mundo ainda era normal. Papai, quando estava em casa, nos trazia aqui para passar o final de semana, para fugir da cidade. Eu não queria parecer mal agradecida, então sempre colocava um sorriso no rosto, mas, no fundo, eu nunca gostei daqui; sempre me pareceu uma casa escura e apertada e havia um cheiro desagradável de umidade. Quando pequena, recordo que mal podia esperar para o final de semana acabar, para me livrar logo deste lugar. Eu me lembro de secretamente me prometer que eu jamais voltaria para cá.

Agora, ironicamente, agradeço a este lugar. Esta casa salvou minha vida – e a de Bree. Quando a guerra estourou e tivemos que fugir da cidade, não tínhamos opções. Se não fosse por este lugar, não sei para onde teríamos ido. E, se este lugar não fosse tão alto e remoto como é, então, provavelmente, nós teríamos sido capturadas por comerciantes de escravos há muito tempo. É engraçado como você odeia tanto algumas coisas quando criança e acaba apreciando as mesmas quando adulta. Bom, quase adulta. Tenho 17 anos, e me considero uma pessoa adulta, de qualquer forma. Eu provavelmente envelheci mais do que a maioria nos últimos anos.

Se esta casa não tivesse sido construída bem na estrada, tão exposta – se ela fosse um pouco menor, mais protegida, mais dentro do bosque, eu acho que não me preocuparia tanto. Claro, ainda teríamos que aguentar as paredes finas, as goteiras no teto, as janelas que deixam vento passar. Jamais seria uma casa quente e confortável. Mas pelo menos, seria segura. Agora, toda vez que olho para ela e depois para a enorme vastidão que vai além, não consigo deixar de pensar que é um alvo fácil.

Meus pés trituram a neve à medida que me aproximo de nossa porta de vinil e latidos surgem de dentro da casa. É Sasha, fazendo o que eu a ensinei a fazer: proteger Bree. Eu sou tão grata a ela. Ela cuida de Bree com tanto esmero, late ao mínimo barulho; isso me permite um pouco de tranquilidade, o suficiente para deixá-la em casa quando vou caçar. Porém, ao mesmo tempo, me preocupa também que seus ladros acabem por nos denunciar: afinal, um cachorro latindo, em geral, significa que há humanos por perto. E é exatamente o que um comerciante de escravo procura escutar.

Eu me apresso para entrar em casa e rapidamente silenciá-la. Fecho a porta atrás de mim, fazendo malabares com os pedaços de lenhas em minhas mãos e entro na sala escura. Sasha fica quieta, balançando seu rabo e pulando em cima de mim. Um labrador cor chocolate, de seis anos de idade, Sasha é o cão mais leal que eu poderia imaginar – e é a melhor companhia. Se não fosse por ela, eu acho que Bree teria entrado em depressão há muito tempo. E eu também.

Sasha lambe meu rosto choramingando e parece ainda mais contente que o normal; ela fareja minha cintura e meus bolsos, já sentindo que eu trouxe alguma coisa especial. Eu deixo a lenha de lado para acariciá-la e, ao fazê-lo, sinto suas costelas. Ela está tão magra. Sinto-me culpada. Por outro lado, eu e Bree também estamos assim. Nós sempre compartilhamos com ela o que encontramos para comer, desse jeito, as três tem condições iguais. Mesmo assim, eu gostaria de poder lhe dar muito mais.

Ela encosta seu nariz no peixe e, ao fazê-lo, o peixe cai da minha mão diretamente no chão. Sasha imediatamente se lança sobre ele, suas unhas o fazem deslizar. Ela salta sobre o peixe novamente e, desta vez, o morde. Mas não deve ter gostado muito do sabor de peixe cru, pois, em seguida, o larga. Agora ela está brincando com o peixe, pulando sobre ele de novo e de novo enquanto o mesmo desliza pelo chão.

“Sasha, pare!” eu digo baixinho pois não quero acordar Bree. Também temo que se ela brincar demais com o peixe, ele acabe se abrindo e desperdiçando carne valiosa. Obedientemente, Sasha para. Posso ver como ela está animada e quero lhe dar alguma coisa. Coloco minha mão em meu bolso, giro a tampa do frasco de conservas, tiro um pouco de geleia de framboesa com meu dedo e ofereço a ela.

Sem perder tempo, ela lambe meu dedo e, em três grandes lambidas ela já comeu tudo o que servi. Ela lambe seus lábios e me encara, os olhos bem abertos, pedindo mais.

Eu acaricio sua cabeça, lhe dou um beijo e fico de pé novamente. Agora me pergunto se foi bondoso lhe dar algo ou cruel lhe dar tão pouco.

A casa está escura, como sempre está à noite e vou tropeçando pela sala. Eu raramente acenderia a lareira. Por mais que necessitemos do calor, não quero correr o risco de chamar atenção. Mas, hoje à noite é diferente: Bree precisar melhorar, física e emocionalmente, e eu sei que o fogo vai ajudá-la. Também me sinto mais corajosa hoje, uma vez que iremos nos mudar daqui amanhã.

Cruzo a sala até chegar ao armário e dele tiro uma vela e um isqueiro. Uma das melhores coisas dessa casa é seu enorme estoque de velas, uma das poucas boas consequências de meu pai ter sido um fuzileiro da Marinha e um fanático por sobrevivência. Quando éramos crianças e visitávamos aqui, a eletricidade caía em toda tempestade e, por isso, ele estocava tantas velas, determinado a vencer a natureza. Eu me lembro de que costumava tirar sarro dele por isso; o chamava de “acumulador” quando descobri seu armário lotado de velas. Agora que temos só algumas, gostaria que ele tivesse guardado mais.

Tenho conservado nosso isqueiro utilizando-o com moderação e lhe passando um pouquinho de gasolina da motocicleta a cada algumas semanas. Eu agradeço a Deus todos os dias pela moto de meu pai e sou muito grata que ele tenha enchido seu tanque uma última vez: é a única coisa que possuímos e que me faz crer que ainda temos uma vantagem, que ainda temos algo valioso, um jeito de sobreviver se tudo for para o inferno. Papai sempre manteve a moto na pequena garagem anexada a casa, porém, quando chegamos, após a guerra, a primeira coisa que fiz foi removê-la dali e levá-la até o topo da colina, dentro da floresta, escondendo-a entre os arbustos e galhos e espinhos tão espessos para que ninguém a encontrasse. Eu pensei que, se nossa casa um dia fosse descoberta, a primeira coisa que fariam seria revistar a garagem.

Eu sou extremamente grata que meu pai tenha me ensinado como pilotá-la quando eu era mais nova apesar dos protestos de mamãe. Foi mais difícil de aprender do que a maioria das outras motos devido ao sidecar que ela tem. Eu me lembro de que, aos doze anos eu, aterrorizada, aprendi a conduzi-la com meu pai, que se sentava no sidecar e me dava ordens toda vez que eu deixava o motor morrer. Aprendi nessas estradas íngremes e implacáveis, lembro-me de pensar que iríamos morrer. Recordo-me de olhar para a beira da estrada, vendo a queda e, chorando, insistir que meu pai pilotasse. Mas ele se recusou. Ficou sentado, teimoso, por mais de uma hora até que eu parasse de chorar e tentasse mais uma vez. E, de algum jeito, eu acabei aprendendo. Em resumo, essa foi minha infância.

Eu não me aproximei da moto desde o dia em que eu a escondi, sequer me arrisco a vê-la, a não ser quando eu preciso pegar combustível – e, mesmo assim, só o faço à noite. Imagino que, se um dia a gente estiver em apuros e precisarmos dar o fora daqui o quanto antes, eu colocarei Bree e Sasha no sidecar e levarei todo mundo para longe em segurança. Mas, na realidade, eu não tenho ideia para onde iríamos. De acordo com tudo que já vi e ouvi, o resto do mundo é uma terra devastada, cheia de criminosos violentos, gangues e poucos sobreviventes. Os poucos violentos que sobreviveram se concentraram nas cidades, sequestrando e escravizando quem eles encontram, ou para servirem a eles mesmos ou para participarem dos jogos mortais nas arenas. Acredito que eu e Bree somos uns dos poucos sobreviventes que ainda vivem livremente, por conta própria, fora das cidades. E uns dos poucos que ainda não morreram de fome.

Acendo a vela, Sasha me seguindo enquanto eu caminho lentamente pela casa escura. Suponho que Bree esteja dormindo e isso me preocupa: ela geralmente não dorme tanto assim. Eu paro na frente de sua porta, indecisa se devo acordá-la. Ao parar ali, olho para cima e me assusto com meu próprio reflexo no pequeno espelho. Vejo como estou muito mais velha, como toda vez que me olho no espelho. Meu rosto, magro e anguloso, está corado pelo frio, meu cabelo castanho claro cai sobre meus ombros, emoldurando minha face e meus olhos acinzentados me encaram, como se pertencessem à outra pessoa que eu não reconheço. São severos e penetrantes. Papai sempre me dizia que eu tinha olhos de lobo. Mamãe sempre dizia que eram lindos. Não sabia em quem acreditar.

Eu rapidamente desvio o olhar, não querendo me ver. Estendo minha mão e viro o espelho para que isso não se repita.

Lentamente, eu abro a porta do quarto de Bree. E, no segundo que o faço, Sasha entra e corre para o lado dela, deitando-se e apoiando seu queixo no peito de minha irmã, enquanto lhe lambe o rosto. Nunca deixo de me impressionar o quanto essas suas são unidas; às vezes sinto que são mais unidas do que nós.

Bree abre os olhos devagar e os mantém semicerrados enquanto olha para a escuridão.

“Brooke?” ela pergunta.

“Sou eu,” eu digo, em voz baixa. “Estou em casa.”

Ela se senta e abre um sorriso, seus olhos se iluminam ao me reconhecer. Ela está em um colchão barato no chão, então retira sua fina manta e começa a se levantar, ainda de pijama. Está se movendo mais devagar que o normal.

Eu me abaixo e lhe dou um abraço.

“Tenho uma surpresa para você,” eu falo, mal conseguindo esconder minha ansiedade.

Bree arregala os olhos, então os fecha e estende as mãos abertas, aguardando. Ela é tão confiante, tão otimista, que me impressiona. Estou indecisa sobre o que devo lhe dar primeiro e então me decido pelo chocolate. Coloco a mão em meu bolso, tiro a barra e calmamente a ponho em suas mãos. Ela abre os olhos e olha para baixo, seus olhos semicerrados sob a luz, incerta. Aproximo a vela.

“O que é isso?” ela pergunta.

“Chocolate,” lhe respondo.

Ela me olha como se esperasse por uma pegadinha.

“É sério,” eu falo.

“Mas aonde você conseguiu isso?” ela pergunta, sem entender. Ela olha para baixo como se um asteroide tivesse acabado de aterrissar em suas mãos. Eu não a culpo: não existem mais lojas, nem pessoas por ai, nem nenhum lugar em um raio de cento e sessenta quilômetros aonde eu pudesse encontrar algo assim.

Eu lhe dou um sorriso. “Papai Noel me deu, é para você. É um presente de natal adiantado.”

Ela franze o cenho. “Não, sério,” ela insiste.

Respiro profundamente ao me dar conta de que é hora de lhe contar sobre nossa nova casa, sobre sair daqui amanhã. Eu tento encontrar a melhor forma lhe de dar as novidades. Espero que ela fique tão animada quanto eu – mas, com crianças, nunca se sabe. Uma parte de mim se preocupa que talvez ela sinta-se apegada a este lugar e não queira ir embora.

“Bree, eu tenho grandes notícias para te dar,” eu falo ao me inclinar para baixo e segurar seus ombros. “Eu encontrei um lugar incrível hoje, lá no alto da montanha. É uma casinha de pedra, perfeita para nós. Aconchegante, quente e segura; e tem uma lareira linda, na qual podemos acendê-la tosas as noites. E o melhor de tudo, tem todo o tipo de alimento lá. Como este chocolate.”

Bree olha para o chocolate, estudando-o, e seus olhos se arregalam ainda mais quando ela percebe que é real. Ela cuidadosamente tira a embalagem e sente seu cheiro. Ela fecha seus olhos e sorri e então se aproxima para dar uma mordida – mas, de repente, se detém. Ela olha para mim, preocupada.

“Mas e você?” ela pergunta. “Tem só uma barra?”

Esta é Bree, sempre pensando nos outros, mesmo quando passa fome. “Sua vez primeiro,” eu falo. “Não tem problema”.

Ela empurra a embalagem para trás e dá uma grande mordida. Seu rosto, desamparado de fome, se enche de euforia.

“Mastigue devagar,” eu aviso. “Você não vai querer ter dor de estômago.”

Ela desacelera, apreciando cada mordida. Quebra um pedaço grande e coloca na minha mão. “É sua vez,” ela diz.

Eu lentamente provo o chocolate, pegando uma pequena mordida, deixando-o na ponta de minha língua. Eu lambo e mastigo, saboreando cada momento. O gosto e o cheiro invadem meus sentidos. É provavelmente a melhor coisa que eu já comi.

Sasha protesta, aproximando seu nariz do chocolate e, em seguida, Bree arranca mais um pedaço e dá para ela. Sasha o tira de seus dedos e engole tudo de uma só vez. Bree ri, encantada com ela, como sempre. Então, em uma surpreendente demonstração de autocontrole, Bree embrulha a metade que sobrou da barra, estende as mãos e sabiamente a põe no alto da cômoda, longe do alcance de Sasha. Bree parece fraca, mas posso ver que está mais animada.

“O que é isso?” ela pergunta, apontando para minha cintura.

Por um momento, eu não sei do que ela está falando, mas aí olho para baixo e vejo o ursinho de pelúcia. Com toda essa euforia, eu havia quase esquecido. Eu o alcanço e entrego para ela.

“Encontrei em nossa nova casa,” eu falo. “É para você.”

Os olhos dela se arregalam de emoção quando ela pega o ursinho, e então o abraça em seu peito e o balança para frente e para trás.

“Eu adorei!” Bree exclama, seus olhos brilhando. “Quando vamos nos mudar? Mal posso esperar!”

Que alívio. Antes que eu possa responder, Sasha mete o nariz no novo urso de pelúcia de Bree, farejando; Bree o esfrega em seu rosto, brincando, e Sasha o pega e sai correndo pela casa.

“Ei!” Bree grita, começando um ataque de risadas enquanto corre atrás dela.

As duas correm pela sala de estar, ambas imersas na luta pelo ursinho. Não sei quem está se divertindo mais.

Eu as sigo, transportando a vela com cuidado para que não se apague e me dirijo diretamente para a pilha de lenha.  Coloco alguns dos galhos menores na lareira e então boto um punhado de folhas secas  que estavam em um cesto próximo à lareira. Estou satisfeita de ter juntado bastante dessas folhas no último outono para acendermos o fogo. Elas funcionam como um feitiço. É só colocar folhas secas embaixo da lenha, acender o isqueiro nelas e logo aparece uma chama que começa a tocar na madeira. Eu continuo alimentando a lareira com folhas até que a lenha finalmente pegue fogo. E logo apago a vela, guardando-a para outra ocasião.

“Vamos fazer uma fogueira?” Bree grita, animada.

“Sim,” eu digo. “Hoje vamos comemorar. É nossa última noite aqui.”

“Viva!” Bree exclama, dando saltos, e Sasha late junto com ela, tomada pela alegria. Bree se aproxima e pega um pouco da lenha, me ajudando com o fogo. Nós alimentamos as chamas com cuidado, dando espaço para o ar, Bree assopra, avivando as chamas. Quando a lenha enfim pega fogo, ponho uma madeira grossa em cima. E sigo empilhando troncos grossos, até termos uma fogueira.

Em pouco tempo, a sala está iluminada e eu já posso sentir o calor. Ficamos na frente da lareira, estendo minhas mãos, esfregando-as, deixando que o calor penetre meus dedos. Lentamente, sinto a sensibilidade voltando. Aos poucos, me descongelo do longo dia passado ao ar livre e começo a me sentir eu mesma de novo.

“O que é isto?” Bree pergunta, apontando para o chão. “Parece um peixe!”

Ela vai até ele, o agarra e, ao levantá-lo, o peixe escapa de suas mãos. Bree ri, e Sasha, não querendo perder o momento, avança sobre ele com suas patas, o mandando para longe no chão. “Onde você conseguiu um?” Bree grita.

Eu o pego antes que Sasha possa danificá-lo mais, abro a porta e o jogo lá fora, na neve, onde ele será mais bem preservado, longe do calor e fecho a porta atrás de mim.

“Essa é minha surpresa,” eu falo. “Nós teremos janta hoje!”

Bree corre e me dá um grande abraço. Sasha late, como se entendesse. Eu a abraço de volta.

“Eu tenho mais duas surpresas para você”, anuncio com um sorriso. “Elas são para sobremesa. Você quer esperar o jantar? O que agora?”

“Agora!” ela grita, eufórica.

Eu também sorrio, animada. Pelo menos isso a deixará controlada na janta.

Coloco a mão em meu bolso e tiro o frasco de geleia. Bree o olha com curiosidade, duvidando, e então eu retiro a tampa e a coloco debaixo de seu nariz. “Feche os olhos,” eu falo.

Ela fecha. “Agora, sinta o cheiro”.

Ela respira profundamente e um sorriso se abre em seu rosto. Ela abre os olhos.

“Tem cheiro de framboesas!” ela exclama.

“É geleia. Vá em frente. Prove.”

Bree mete dois dedos, pega bastante geleia e come. Seus olhos se iluminam.

“Uau,” ela fala, enquanto pega mais um pouco e dá para Sasha, que avança sem hesitar para comer. Bree ri  histericamente e eu fecho o frasco e deixo o vidro na estante, fora do alcance de Sasha.

“Isso também é da nossa nova casa?” ela pergunta.

Eu concordo com a cabeça, feliz em ver que ela já considera aquela casa como nosso lar.

“E ainda tem uma última surpresa,” eu falo “mas esta aqui eu vou deixar para depois do jantar.”

Tiro a garrafa térmica do meu cinto e a coloco no alto da estante, fora de vista, para que ela não saiba o que é. Posso vê-la alongando o pescoço, mas eu escondi bem.

“Confie em mim,” eu falo. “Vai ser muito bom.”

*

Como eu não quero que a casa cheire a peixe, decido encarar o frio e cozinhar o salmão do lado de fora. Levo minha faca e começo a prepará-lo, apoiando-o em um toco de árvore enquanto me ajoelho sobre ele na neve. Eu não sei realmente o que estou fazendo, mas sei que não comemos a cabeça nem a cauda então começo a cortar essas partes.

Também suponho que não iremos comer as nadadeiras, por isso as retiro – nem as escamas, que tento removê-las o melhor que posso. Logo percebo que devemos abri-lo para comê-lo, então fatio o que sobrou na metade. O peixe tem entranhas rosas, grossas e um monte de ossinhos. Não sei mais o que fazer então acredito que esteja pronto para assar.

Antes de voltar para casa, sinto a necessidade de lavar minhas mãos. Me abaixo, pego um punhado de neve e enxáguo minhas mãos com isso, grata pela neve – porque normalmente eu teria que andar até o córrego mais próximo, já que não temos água corrente. Levanto-me e, antes de entrar, paro por um segundo e examino os arredores. A princípio, procuro ouvir, como sempre, por qualquer sinal de barulho, de perigo. Após alguns segundos, percebo que o mundo está tranquilo como deveria estar. Finalmente, aos pouco, eu relaxo, respiro profundamente, sentindo os flocos de neve em minhas bochechas e disfruto desta incrível tranquilidade, me dou conta de como esta paisagem é absolutamente linda. Os pinheiros altíssimos estão cobertos de branco, a neve cai sem parar do céu púrpuro e o mundo parece perfeito, como um conto de fadas. A lareira resplandece através da janela e, daqui, nossa casa parece o lugar mais acolhedor do mundo.

Regresso a casa com o peixe, fechando a porta atrás de mim, e tenho a ótima sensação de entrar em um lugar tão quente, com a suave luz do fogo refletindo em tudo. Bree está cuidando bem do fogo, como sempre, adicionando lenha sabiamente, as chamas agora chegam a uma altura maior ainda. Ela está colocando os talheres no chão, próximos à lareira, com facas e garfos da cozinha. Sasha está sentada ao seu lado, atenta, observando cada movimento.

Eu levo o peixe até o fogo. Não sei realmente como se cozinha isso, acredito que eu deva colocá-lo no fogo por um tempo, deixá-lo assando e virá-lo algumas vezes, espero que isso funcione. Bree lê minha mente: ela vai até a cozinha e volta com uma faca afiada e dois espetos grandes. Ela espeta cada pedaço de peixe, pega sua parte e coloca sobre as chamas. Eu a imito. Os instintos domésticos de Bree são melhores que os meus, eu sou grata por sua ajuda. Nós sempre formamos uma boa equipe.

Nós duas ficamos ali, olhando as chamas, paralisadas, segurando nossos peixes no fogo até nossos braços começarem a cansar. O cheiro do peixe encheu a casa e, depois de uns dez minutos, sinto um incômodo em meu estômago e fico impaciente de fome. Decido que meu peixe já está assado, afinal, lembrei que as pessoas, às vezes, comem peixe cru, então não tem como me fazer mal. Bree parece concordar e, assim, nós duas colocamos nossos pedaços nos pratos e nos sentamos no chão, uma ao lado da outra, de costas para o sofá e nossos pés voltados para o fogo.

“Cuidado,” eu aviso. “Ainda tem muitos ossos dentro.”

Tiro algumas espinhas e Bree também o faz. Quando termino de triá-las, eu pego um pedaço da carne rosada, quente ao toque, e levo à boca, me preparando.

Na verdade, o sabor é bom. Podia ter um pouco de sal ou algum tempero, mas pelo menos parece cozido e tem o sabor mais fresco possível.  Eu posso sentir a necessidade de proteínas de meu organismo. Bree devora seu peixe e posso notar o alívio em seu rosto. Sasha senta-se ao seu lado, observando, lambendo seus beiços até que Bree escolha um belo pedaço desossado para alimentá-la. Sasha o mastiga e engole, lambe seus lábios e volta a nos olhar, querendo mais.

“Sasha, aqui,” eu falo.

Ela vem correndo, pego um pouco do meu peixe, tiro os ossos e dou para ela. Ela engole tudo em segundos. Antes que eu perceba, meu peixe já acabou – assim como o de Bree – e fico surpresa de ver meu estômago roncando novamente. Eu gostaria de ter pescado mais. Mesmo assim, foi o maior jantar que tivemos em semanas, e eu tento me contentar com o que temos.

E então me lembro da seiva. Levanto-me em um pulo, tiro a garrafa térmica de onde ela estava escondida e a dou para Bree.

“Vá em frente,” eu sorrio, “o primeiro gole é seu.”

“O que é?” ela pergunta, desenroscando a tampa e aproximando a garrafa de seu nariz. “Não tem cheiro de nada.”

“É seiva de bordo,” eu falo. “É como água com açúcar. Mas melhor.”

Ela toma um gole, hesitante, e então olha para mim, seus olhos abertos de alegria. “É uma delícia!” ela diz. Ela toma vários goles, e então para e me entrega a garrafa. Eu não resisto e também tomo grandes goles. Sinto o açúcar em meu sangue. Eu me inclino e coloco um pouco na vasilha de Sasha; ela bebe tudo e parece ter gostado também.

Mas eu ainda estou faminta. Em um raro momento de fraqueza, eu penso no pote de geleia e me pergunto por que não? Depois de tudo, eu acredito que há muito mais na casa no topo da montanha – e se esta noite não é motivo de celebração, quando seria então?

Eu pego o vidro de geleia, tiro a tampa e, com meu dedo, tiro uma boa quantia. Coloco na minha língua e fico saboreando o máximo possível antes de engolir. Tem um sabor celestial. Eu dou o resto do pote, ainda na metade, para Bree.  “Vá em frente,” eu falo, “acabe com ele. Há mais na nossa nova casa.”

Bree arregala os olhos quando pega o vidro.  “Você tem certeza?” ela pergunta. “Não deveríamos guardar?”

Eu balanço minha cabeça. “Está na hora de aproveitarmos.”

Não preciso de muito para convencer Bree. Em momentos, ela come tudo, deixando um pouco para Sasha.

Ficamos ali, deitadas, apoiadas no sofá, nossos pés em direção ao fogo quando, finalmente, sinto que meu corpo começar a relaxar. Com o peixe, a seiva e a geleia, sinto, finalmente, minhas forças voltarem. Eu olho para Bree, que já está quase dormindo, Sasha com a cabeça em seu colo e, apesar de ainda parecer doente, pela primeira vez em muito tempo, percebo esperança em seus olhos.

“Eu amo você, Brooke,” ela diz baixinho.

“Eu também amo você,” eu respondo.

Mas, quando olho para ela, percebo que já está adormecida.

*

Bree está deitada no sofá, em frente ao fogo, enquanto eu sento na cadeira ao seu lado; é um hábito que desenvolvemos com o passar dos meses. Toda noite, antes de dormir, ela se aconchega no sofá, com medo demais para dormir sozinha em seu próprio quarto. Eu lhe faço companhia, esperando que ela adormeça, depois, eu a carrego para sua cama. Na maior parte das noites, nós não temos fogueira, mas sentamos aqui do mesmo jeito.

Bree sempre tem pesadelos. Ela não os tinha antes: lembro-me de antes da guerra, quando ela dormia facilmente. Tão facilmente que eu costumava brincar com ela, chamando-a de Bree “dorminhoca”, já que ela dormia no carro, no sofá, lendo um livro na cadeira – em qualquer lugar. Mas agora, tudo mudou; hoje, ela fica acordada por horas e, quando dorme, tem o sono agitado. Na maioria das noites eu a ouço gemendo e gritando através das paredes finas. Mas quem a culparia? Com todos os horrores que já vimos, é incrível que ela ainda não tenha enlouquecido. Há várias noites que eu mal consigo dormir.

Uma coisa que a ajuda a dormir é quando eu leio para ela. Por sorte, quando fugimos, Bree teve a ideia de levar seu livro favorito. A Árvore Generosa. Toda noite, eu o leio para ela. Eu já sei o livro de cor e, quando estou cansada, às vezes, eu fecho meus olhos e o recito de memória. Por sorte, é curtinho.

Encosto-me à cadeira, me sentindo sonolenta, eu viro a capa gasta e começo a ler. Sasha está deitada no sofá, ao lado de Bree, as orelhas atentas, de vez em quando, me pergunto se ela também está me escutando.

“Era uma vez uma árvore que amava um menino. E todos os dias, o menino vinha e juntava suas folhas. E com elas, fazia coroas de rei.”

Eu dou uma olhada no sofá e vejo que Bree já está adormecida. Fico aliviada. Talvez tenha sido o fogo, ou a janta. Dormir é o que ela mais precisa agora para se recuperar. Eu tiro meu cachecol que estava bem enrolado em meu pescoço e o coloco, gentilmente, sobre seu peito. Finalmente, seu pequeno corpo para de tremer.

Eu coloco uma última lenha no fogo, sento de volta na cadeira e giro, encarando as chamas. Eu a vejo ser consumida e gostaria de ter trazido mais lenha para baixo. Mas é melhor assim. Será mais seguro dessa maneira.

Um tronco estala enquanto eu me acomodo, me sentindo mais relaxada do que não sinto em anos. Às vezes, depois que Bree adormece, eu pego o meu livro e o leio para mim. Eu o vejo ali, no chão: O Senhor das Moscas. É o único livro que me sobrou e está tão surrado pelo uso que parece ter uns cem anos. É uma sensação esquisita, ter apenas um livro restante no mundo. Faz-me perceber como eu subestimei tudo, me faz sentir saudades das bibliotecas.

Hoje, me sinto muito agitada para ler. Minha mente está acelerada, cheia de pensamentos para amanhã, sobre nossa nova vida, no alto da montanha. Eu continuo pensando em todas as coisas que vou precisar transportar daqui para lá e como eu farei isso. Há nossas coisas básicas: utensílios, fósforos, o que sobraram das velas, lençóis e colchões. Fora isso, nenhuma de nós tem muitas roupas e, tirando nossos livros, não temos pertences. Esta casa estava bem vazia quando chegamos, por isso não há nenhum enfeite. Eu gostaria de poder levar este sofá e esta cadeira, mas sei que precisarei da ajuda de Bree para isso e terei que esperar até que ela esteja se sentindo melhor. Teremos que fazer tudo por etapas, levando o essencial primeiro e deixando a mobília por último. Mas isto é o de menos: desde que estejamos lá em cima, seguras e a salvo. É isso que realmente importa.

Eu começo a pensar em todas as coisas que posso fazer para aquela casinha se tornar ainda mais segura. Certamente irei encontrar uma maneira de criar persianas para aquelas janelas escancaradas, para que eu possa fechá-las quando necessário. Olho a minha volta, buscando por algo em nossa casa que possa ser utilizado. Precisaria de dobradiças para que as persianas funcionassem, então olho para as dobradiças da porta da sala de estar. Talvez eu consiga removê-las. E já que terei que fazê-lo, talvez eu possa utilizar esta porta e serrá-la em pedaços.

Quanto mais eu olho a minha volta, mais eu percebo quantas coisas posso resgatar aqui. Eu lembro que papai deixou uma caixa de ferramentas na garagem, com um serrote, martelo, chave de fenda até uma caixa de pregos. É um de nossos bens mais preciosos então farei uma nota mental para não esquecer de levá-la.

Depois, é claro, da motocicleta. Isso que não sai da minha cabeça: quando transportá-la e como. Eu não consigo suportar a ideia de deixá-la para trás, nem por um minuto. Então, em nossa primeira viagem para cima, eu a levarei. Não posso ligá-la e, assim, chamar atenção – além disso, a montanha é muito íngreme para que eu consiga pilotá-la para lá. Eu terei que andar com ela, montanha acima. Já consigo imaginar como isso será cansativo, especialmente com a neve. Mas não vejo outro jeito. Se Bree não estivesse doente, ela me poderia me ajudar, mas no atual estado em que ela se encontra, não poderá levar nada – suspeito até que eu terei que carregá-la. Percebo que não temos alternativa a não ser esperar amanhã à noite, para que a escuridão nos acoberte antes de nos mudarmos. Talvez eu esteja sendo paranoica – as chances de alguém nos ver são remotas, mas, ainda assim, é melhor ter cuidado. Especialmente porque eu sei que há outros sobreviventes por aqui. Tenho certeza.

Lembro-me do primeiro dia em que chegamos. Estávamos as duas assustadas, desamparadas e exaustas. Naquela primeira noite, fomos dormir de barriga vazia, eu me perguntava como iríamos sobreviver. Teria sido um erro deixar Manhattan, abandonar nossa mãe, deixar tudo que conhecíamos para trás?

E então, em nossa primeira manhã, eu acordei, abri a porta e me assustei ao ver, bem na minha frente, uma carcaça de um cervo. A princípio, tive medo. Encarei aquilo como uma ameaça, um aviso, supus que alguém estivesse nos mandando embora, que não éramos benvindas aqui. Mas, depois do susto inicial, entendi que não era nada disso, aquilo se tratava, na verdade, de um presente. Alguém, algum outro sobrevivente, esteve nos observando. Ele deve ter percebido como parecíamos desesperadas e, em um ato de extrema generosidade, decidiu nos dar essa caça, nossa primeira refeição, carne suficiente para durar por semanas. Não consigo imaginar o quão valioso isso devia ser para ele.

Recordo-me de andar lá fora, olhando em todas as partes, para cima e para baixo da montanha, procurando em todas as árvores, esperando que alguém aparecesse e me saudasse. Mas ninguém apareceu. Tudo que eu vi foram árvores e, mesmo esperando por alguns minutos, tudo que eu ouvi foi silêncio. Mas, eu sabia, eu simplesmente sabia, que eu estava sendo observada. Sabia que havia mais gente aqui em cima, sobrevivendo, exatamente como nós.

Desde então, senti um tipo de orgulho, senti que éramos parte de uma comunidade silenciosa de sobreviventes isolados que vivem por estas montanhas, sendo reclusos, nunca falando uns com os outros, com medo de sermos vistos, com medo de ficarmos visíveis a algum comerciante de escravos. Acredito que é assim que os outros sobreviveram até agora: não correndo nenhum risco. No começo, eu não entendia isso. Mas agora, eu agradeço. E, desde então, mesmo sem ver ninguém, nunca me senti sozinha.

Mas isso também me fez mais vigilante; esses outros sobreviventes, se ainda estiverem vivos, devem, com certeza, estar com tanta fome e se sentindo tão desesperados como nós. Especialmente nos meses de inverno. Quem sabe se a fome, se a necessidade de defender suas famílias, os levou ao extremo do desespero, se seu jeito caridoso foi substituído por um instinto de sobrevivência? Eu sei que, pensar em Bree, Sasha e em mim mesma, morrendo de fome, às vezes, me levou a ter uns pensamentos bem desesperados. Por isso eu não quero correr nenhum risco. Vamos nos mudar à noite.

O que funcionará perfeitamente, de qualquer forma. Eu preciso aproveitar a manhã para subir até lá, sozinha, explorar primeiro e me certificar uma vez mais que ninguém entrou nem saiu de lá. Também preciso voltar para o local aonde encontrei o cervo e esperar por ele. Eu sei que é um tiro no escuro, mas se eu puder encontrá-lo de novo e matá-lo, poderemos comer por semanas. Eu desperdicei o primeiro cervo que recebemos, anos atrás porque eu não sabia como retirar sua pele, nem como cortá-lo, nem como preservá-lo. Fiz uma sujeira com ele e consegui apenar aproveitar uma refeição antes de a carcaça inteira apodrecer. Foi um terrível desperdício de comida e estou determinada a nunca mais fazer isso. Desta vez, especialmente com a neve, vou achar um jeito de conservá-lo.

Coloco a mão no meu bolso e tiro a faca que papai me deu antes de partir. Passo a mão pela empunhadura gasta, sentindo suas iniciais gravadas e o logo da Marinha estampado, tenho feito isso todos os dias desde que chegamos. Digo para mim mesma que ele ainda está vivo. Mesmo após todos estes anos, mesmo sabendo que as chances de vê-lo novamente sejam quase zero, eu não consigo deixar de pensar nessa possibilidade.

Desejo toda as noites que meu pai não tivesse partido, que ele nunca tivesse se voluntariado para a guerra. Para começo de conversa, foi uma guerra idiota. Nunca realmente compreendi como iniciou e ainda não sei. Papai me explicou, várias vezes, e eu ainda não entendo. Talvez fosse por causa de minha idade. Talvez eu não tivesse idade suficiente para entender as coisas sem sentido que os adultos podem fazer um com os outros.

Do jeito que papai explicou, foi a Segunda Guerra Civil – desta vez, não foi entre e o Norte e o Sul, mas entre partidos políticos. Entre os Democratas e o Republicanos. Ele disse que era uma guerra que estava por vir fazia tempo. Durante os últimos cem anos, ele disse, os Estados Unidos esteve à deriva em uma terra de duas nações: aqueles de extrema direita e aqueles de extrema esquerda. Com o passar do tempo,  as posições se firmaram tão fortemente que o país se tornou uma nação de ideologias opostas.

Papai falou que o pessoal de esquerda, os Democratas, queriam uma nação dirigida por um governo cada vez maior, que aumentaria os impostos para 70% e estaria envolvido em todos os aspectos das vidas das pessoas. Ele disse que o pessoal de direita, os Republicanos, queriam um governo cada vez menor, que iria abolir todos os impostos, não perturbaria o povo e o deixaria a sua própria sorte. Ele disse que, com o tempo, essas duas ideologias diferentes, ao invés de se comprometerem, se distanciavam cada vez mais, ficando mais radicais – até que atingiram um ponto onde não concordavam com mais nada.

Para piorar a situação, ele disse, os Estados Unidos estava populoso demais, se tornou difícil para qualquer político conseguir atenção nacional e os políticos das suas partes começaram a perceber que, para conseguir atenção, era necessário tomar posições extremas – que era o que precisavam para sua ambição pessoal.

Como resultado, as pessoas mais importantes de ambas as partes eram os mais extremistas, cada um tentando superar o outro, tomando posições que eles sequer acreditavam, mas que se viam obrigados a tomar. Naturalmente, quando as duas partes debatiam, só podiam discutir um com o outro – e eles o faziam com palavras grossas e duras. No início, eram apenas insultos e ataques pessoais. Mas, com o passar do tempo, a guerra verbal foi se intensificando. E, então, um dia, chegaram a um ponto sem volta.

Um dia, há uns dez anos atrás, um momento crítico chegou quando um líder político ameaçou outro com uma palavra profética: “secessão”. Se os Democratas tentassem elevar um centavo que fosse nos impostos, seu partido se separaria do sindicato e cada povoado, cada cidade e cada estado se dividiriam em dois. Não por terra, mas por ideologia.

Não poderia ter sido em momento pior: nessa época, a nação passava por uma depressão econômica e havia descontentamento suficiente, o povo estava farto de perder o emprego à custa deste político ganhar popularidade. As mídias adoravam os níveis de audiência que estavam atingindo e lhe deram mais tempo no ar. Pronto, sua popularidade cresceu. Com o tempo, sem nada para detê-lo, com os democratas não dispostos a se comprometerem e, aproveitando o impulso que levava, sua ideia se fortaleceu. Seu partido propôs sua própria bandeira nacional e até mesmo sua própria moeda.

Foi o primeiro momento crítico. Se alguém tivesse se levantado e o impedido, tudo poderia ter sido evitado. Mas ninguém o fez. E então ele foi ainda mais longe.

Fortalecido, este político propôs que a nova união também tivesse sua própria força policial, seus próprios tribunais, suas próprias tropas estaduais – até mesmo seu próprio exército. Este foi o segundo momento crítico.

Se o Presidente Democrata tivesse sido um bom líder nessa época, talvez ele pudesse ter detido as coisas antes. Mas ele agravou a situação ao tomar decisão ruim atrás de decisão ruim. Ao invés de acalmar as coisas, de atender às necessidades básicas que conduziram ao descontentamento, ele decidiu que o único jeito de anular o que ele chamou de “a Rebelião” era com uma atitude dura: ele acusou toda a liderança Republicana de sedição. Ele declarou a lei marcial e, no meio da noite, prendeu todos.

Isso intensificou as coisas e juntou todo o seu partido. Também reuniu metade dos militares. Pessoas estavam divididas em cada casa, cada cidade, cada quartel militar; aos poucos, a tensão se acumulou nas ruas e vizinhos odiavam uns aos outros. Até famílias se dividiram.

Uma noite, aqueles da cúpula militar leal aos Republicanos seguiram ordens secretas e organizaram um golpe, tirando-os da prisão. Houve confronto. E, nos degraus do prédio do Capitólio, o primeiro tiro fatídico foi disparado. Um jovem soldado achou que havia visto um oficial sacar uma arma e disparar primeiro. Assim que o primeiro soldado caiu, não havia mais volta. A linha final havia sido cruzada Um estado-unidense havia matado outro estado-unidense. Um tiroteio se seguiu, com dezenas de mortos. Os líderes republicanos foram levados para um local secreto. E, a partir deste momento, o exército se dividiu em dois. O governo se dividiu em dois. Cidades, vilas, condados e estados, todos se dividiram em dois. Isto se tornou conhecido como a Primeira Onda.

Durante os primeiros dias, gestores de crise e facções governamentais tentaram reestabelecer a paz. Mas era um pouco tarde demais. Nada poderia deter a tempestade que estava por vir. Uma facção de militares de linha dura tomou o assunto para si mesmos, almejando glória, querendo ser os primeiros na guerra, querendo a vantagem de velocidade e surpresa. Pensaram que esmagar a oposição imediatamente era a melhor maneira de dar um fim a tudo aquilo.

A guerra começou. Batalhas tomaram conta do solo americano. Pittsburgh virou a nova Gettysburg, com duzentos mortos em uma semana. Tanques iam contra tanques. Aviões contra aviões. Todo dia, toda semana, a violência aumentava. Limites eram colocados nas terras, militares e a polícia se dividiram e batalhas se espalharam por todos os estados da nação. Em todos os lugares, pessoas lutavam umas contra as outras, amigo contra amigo, irmão contra irmão. Chegou a um ponto em que ninguém mais sabia pelo que estavam lutando.  Foi derramado sangue pelo país inteiro, ninguém parecia ser capaz de parar essa situação. Essa época ficou conhecida como a Segunda Onda.

Até este momento, sangrenta como era, ainda era uma guerra convencional. Então veio a Terceira Onda, a pior de todas. O Presidente, em desespero, operando de um refúgio subterrâneo secreto, decidiu que havia apenas um jeito de acabar com o que ele ainda chamava insistentemente de “a Rebelião”. Reunindo seus melhores oficiais militares, eles o aconselharam a usar os recursos mais fortes para sufocar a rebelião de uma vez por todas: mísseis nucleares dirigidos. Ele concordou.

No dia seguinte, as bombas nucleares foram lançadas em estratégicas fortificações Republicanas por todos os Estados Unidos. Milhares morreram nesse dia, em lugares como Nevada, Texas, Mississippi. Milhões morreram no segundo.

Os Republicanos responderam. Eles arranjaram seus próprios recursos, emboscaram a NORAD (Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte) e lançaram suas próprias bombas nucleares nas fortalezas dos Democratas. Estados como Maine e New Hampshire foram os mais afetados. Dentro dos próximos dez dias, quase todo Estados Unidos foi destruído, uma cidade atrás da outra. Era onda atrás de onda de pura destruição, aqueles que não morreram por ataques diretos morreram depois devido ao ar e água tóxicos. Dentro de um mês, não sobrou mais ninguém para lutar. Ruas e prédios se esvaziaram um por um já que as pessoas saíam para lutar contra ex-vizinhos.

Mas papai sequer esperou pelo recrutamento – e é por isso que eu ainda o odeio. Ele foi embora muito antes. Ele havia sido um oficial da Infantaria da Marinha muito anos antes disso tudo acontecer, e ele sabia que essa guerra iria estourar antes que a maioria. Toda vez que ele assistia ao noticiário, toda vez que via políticos gritando uns com os outros de maneira desrespeitosa, sempre aumentando a aposta, papai balançava a cabeça e dizia: “isso vai virar guerra. Acreditem em mim”.

E ele estava certo. Ironicamente, papai já havia cumprido seu serviço militar e estava aposentado da Infantaria há anos quando tudo isso começou a acontecer; mas, quando o primeiro tiro foi disparado, neste dia, ele se alistou de novo. Antes mesmo de haver se falado em uma guerra completa. Ele provavelmente foi a primeira pessoa a se voluntariar por uma guerra que ainda nem havia começado.

E é por isto que eu ainda estou brava com ele. Por que ele teve que fazer isso? Por que ele não podia simplesmente deixar que os outros se matassem? Por que ele não ficou em casa, nos protegendo? Por que ele se importava mais com este país do que com sua família?

Ainda me lembro, nitidamente, o dia em que ele nos deixou. Naquele dia, eu havia voltado para casa depois da escola e, antes mesmo de abrir a porta, eu ouvi gritos vindo de dentro. Eu me preparei. Odiava quando papai e mamãe brigavam, o que parecia o tempo inteiro, e eu achei que aquilo fosse apenas mais uma de suas discussões.

Eu abri a porta e sabia, de cara, que algo estava diferente. Alguma coisa estava muito, muito errada. Papai estava em pé, completamente uniformizado. Não fazia sentido. Ele não vestia seu uniforme há anos. Por que ele o estaria vestindo agora?

“Você não é homem!” mamãe ralhou com ele. “Você é um covarde! Abandonando sua família. Para que? Partir e matar inocentes?”

O rosto de papai ficou vermelho, como sempre acontecia quando ele se zangava.

“Você não sabe do que está falando!" ele gritou de volta. “Estou cumprindo o meu dever para com meu país. É a coisa certa a fazer.”

“A coisa certa a fazer por quem?” ela retruca. “Você sequer sabe por que está lutando. Por um grupo de políticos idiotas?”

“Eu sei exatamente pelo que estou lutando: para manter nossa nação unida.”

“Oh, puxa, desculpe-me, Senhor América!” ela grita com ele. “Você pode justificar isto do jeito que quiser na sua cabeça, mas a verdade é que você está partindo porque não consegue me suportar. Porque você nunca soube lidar com a vida doméstica. Porque você é muito idiota e não consegue fazer mais nada da sua vida depois da Marinha. E por isso você pega a primeira oportunidade para se livrar –”.

Papai a interrompeu dando-lhe um tapa na cara. Eu ainda consigo ouvir o barulho em minha cabeça.

Fiquei chocada, nunca havia visto meu pai bater em minha mãe antes. Fiquei sem respiração, como se eu tivesse recebido aquele tapa. Fiquei olhando para ele, mal o reconhecendo. Aquele era realmente meu pai? Fiquei tão atordoada que derrubei meu livro e este caiu com um baque.

Os dois olharam para mim. Assustada, sai correndo pelo corredor para o meu quarto e bati a porta atrás de mim. Não sabia como reagir, eu simplesmente tinha que ficar longe deles.

Um pouco depois, ouvi uma leve batida na minha porta.

“Brooke, sou eu,” papai me chamou com uma voz baixa e arrependida. “Sinto muito por você ter visto aquilo. Por favor, deixe-me entrar.”

“Vá embora!” eu gritei de volta.

Um longo silêncio se seguiu. Mas ele não se retirou.

“Brooke, eu preciso ir. Eu quero te ver uma última vez antes de partir. Por favor, saia e me diga tchau.”

Eu comecei a chorar.

“Vá embora!” eu retruquei de novo. Eu estava tão arrasada, tão furiosa por ele ter batido em mamãe e ainda mais furiosa por ele estar nos deixando. E, no fundo, eu estava com medo de que ele nunca mais voltasse.

“Eu estou indo embora agora, Brooke,” ele disse. “Você não precisa abrir a porta para mim. Mas eu quero que saiba o quanto eu amo vocês. E que eu sempre estarei com vocês. Lembre-se, Brooke, você é a mais forte. Cuide desta família. Estou contando com você. Tome conta de todos.”

E então eu ouvi os passos de meu pai, se afastando. Ficando cada vez mais e mais distantes. Momentos depois eu ouço a porta da frente se abrir e então se fechar.

E depois, mais nada.

Minutos – que pareciam dias – depois, eu lentamente abri a porta. Eu já sentia. Ele se fora. E eu já estava arrependida; gostaria de ter falado adeus. Pois eu já estava pressentindo, no fundo, que ele nunca mais voltaria.

Mamãe sentou-se à mesa da cozinha, com o rosto entre as mãos, chorando baixinho. Eu sabia que as coisas haviam mudado para sempre nesse dia, que nada mais seria o mesmo de novo – que ela  nunca mais seria a mesma. Nem eu.

E eu estava certa. Enquanto sento aqui, olhando as chamas do fogo fraco, com os olhos pesados, eu percebo que, desde esse dia, nada voltou a ser o mesmo de antes.

*

Estou em nosso antigo apartamento, em Manhattan. Não sei o que estou fazendo nem como vim parar aqui. Nada parece fazer sentido, o apartamento não se parece em nada com o que eu me lembro. Não há nenhuma mobília, como se ninguém nunca tivesse morado aqui. Estou sozinha.

Há uma repentina batida na porta e meu pai entra, todo uniformizado, segurando uma maleta. Há um vazio em seu olhar, como se ele tivesse ido ao inferno e voltado.

“Papai!” eu tento berrar. Mas as palavras não saem. Eu olho para baixo e percebo que estou grudada ao chão, escondida atrás de uma parede e que ele não pode me ver. Por mais que eu lute para me libertar, para correr até ele, para gritar seu nome, não consigo. Sou forçada a assistir, impotente, meu pai entrar no apartamento vazio e olhar tudo em volta.

“Brooke?” ele grita. “Você está aqui? Tem alguém em casa?”

Tento responder de novo, mas minha voz não funciona. Ele procura de cômodo em cômodo. “Eu disse que eu voltaria,” ele fala. “Por que ninguém esperou por mim?”

Então, ele começa a chorar.

Meu coração se parte e eu tento, com todas as minhas forças, chamá-lo. Mas não importa o quanto eu me esforce, nenhum som sai.

Ele finalmente se vira e vai embora, fechando gentilmente a porta atrás dele. O som da maçaneta reverbera neste vazio.

“PAPAI!” eu grito, finalmente encontrando minha voz.

Mas é tarde demais. Eu sei que ele se foi para sempre e, de alguma forma, é tudo culpa minha.

Eu pisco e a próxima coisa que sei é que estou de volta às montanhas, na casa de papai, sentada em sua poltrona favorita, ao lado da lareira. Papai está inclinado para frente, de cabeça baixa, brincando com sua faca da Infantaria da Marinha. Fico horrorizada quando noto que metade de seu rosto está derretida até o osso; eu posso até ver metade de seu crânio.

Ele olha para mim e eu sinto medo.

“Você não pode esconder Bree aqui para sempre,” ele diz, em tom comedido. “Você acha que está segura aqui, mas eles virão atrás de você. Leve Bree e se escondam.”

Ele se levanta, vem até mim, me segura pelos ombros e me sacode, seus olhos queimando com tamanha intensidade. “VOCÊ ME OUVIU, SOLDADO?” ele berra.

Papai desaparece e, ao mesmo tempo, todas as portas e janelas abrem de uma vez só, em uma cacofonia de vidros quebrados.

Em nossa casa, uma dúzia de comerciantes de escravos invade, armas em punho. Eles estão vestidos com seus conhecidos uniformes inteiramente pretos, da cabeça aos pés, com máscaras negras e correm para todos os cantos da casa. Um deles agarra Bree no sofá e a leva embora, berrando, enquanto outro vem em minha direção, crava seus dedos em meu braço e mira sua pistola diretamente em meu rosto.

E ele atira.

Acordo gritando, desorientada.

Sinto dedos cravados em meu braço e estou confusa sobre o que é sonho e o que é realidade, estou pronto para atacar. Eu olho para meu lado e me dou conta que é Bree, ali parada, sacudindo meu braço.

Eu ainda estou sentada na cadeira de meu pai e agora a sala está inundada com luz do sol. E Bree está chorando, histérica.

Eu pisco repetidas vezes enquanto me sento, tentando me orientar. Foi tudo um sonho? Parecia tão real.

“Tive um pesadelo terrível!” Bree chora, sem soltar meu braço.

Olho ao meu redor e vejo que o fogo se extinguiu há um bom tempo. Vejo a luz do sol e percebo que a manhã já deve estar no fim. Não acredito que dormi na cadeira – eu nunca fiz isso antes.

Eu mexo minha cabeça, tentando me livrar das teias de aranhas. O sonho me pareceu tão concreto que ainda é difícil acreditar que ele não aconteceu. Eu já havia sonhado com papai antes, muitas vezes, mas nada assim, tão próximo da realidade. Acho difícil aceitar que ele não está mais na sala comigo, neste momento, eu ainda dou uma olhada a minha volta só para ter certeza.

Bree segura meu braço, inconsolável. Eu nunca a vi desse jeito.

Ajoelho-me ao seu lado e lhe dou um abraço. Ela se agarra a mim.

“Eu sonhei que esses homens vieram e me levaram embora! E que você não estava aqui para me salvar” Bree chora, por cima de meu ombro. “Não vá!” ela suplica, histérica. “Por favor, não vá. Não me deixe!”

“Eu não vou a lugar nenhum,” eu digo, apertando-a bem forte. “Shhh… Está tudo bem… Não há nada para se preocupar. Está tudo bem.”

Mas, no fundo, eu não consigo deixar de sentir que não está nada bem. Ao contrário. Meu sonho me abalou profundamente e o fato de Bree ter tido um sonho tão perturbador assim – e ainda mais sobre o mesmo assunto – não me traz tranquilidade. Não acredito muito em presságios, mas não consigo de pensar que é tudo um sinal. Não ouvi nenhum barulho nem nenhuma agitação e, se houvesse alguém a um quilômetro daqui, eu certamente saberia.

Eu levanto o queixo de Bree, secando suas lágrimas. “Respire fundo,” eu falo.

Bree me ouve, lentamente recuperando o fôlego. Eu me obrigo a sorrir. “Veja,” eu digo. “eu estou bem aqui. Não há nada de errado. Foi apenas um pesadelo. Viu?”

Devagar, Bree concorda.

“Você só estava cansada demais,” eu continuo. “E você teve febre. Por isso teve pesadelos. Vai ficar tudo bem.”

Enquanto estou ajoelhada, abraçando Bree, me dou conta que preciso ir, escalar a montanha, explorar nossa nova casa e encontrar comida. Sinto um nó em meu estômago quando penso em falar isso para Bree e em como ela reagirá. Obviamente, o momento não poderia ser pior. Como contarei a ela que preciso deixá-la sozinha agora? Mesmo que por apenas uma ou duas horas? Uma parte de mim quer permanecer aqui, tomar conta dela o dia todo; e, ao mesmo tempo, sei que preciso ir e, quanto mais cedo eu terminar as tarefas, mais seguras estaremos. Eu não posso ficar aqui sentada, sem fazer nada, esperando o anoitecer. Nem posso arriscar mudar o plano e nos mudarmos durante o dia apenas por causa desses sonhos tolos.

Eu solto Bree de meus braços, afastando seu cabelo de seu rosto, sorrio o mais gentilmente possível. E reúno a voz mais forte e mais adulta que posso.

“Bree, eu preciso que você ouça,” eu comecei. “Eu preciso sair agora, só por um tempinho—”

“NÃO!” ela protesta. “EU SABIA! É igualzinho ao meu sonho! Você vai me deixar! E nunca mais vai voltar!”

Eu seguro seus ombros com paciência, tentando consolá-la.

“Não é nada disso,” eu digo firmemente. “Eu só preciso sair por uma ou duas horas. Preciso me certificar que nossa nova casa está segura para a gente se mudar hoje à noite. E eu tenho que procurar alimento. Por favor, Bree, entenda. Eu a levaria comigo, mas você está muito doente agora e precisa repousar. Estarei de volta em algumas horas. Eu prometo. E então, à noite, nós vamos lá juntas. E sabe qual a melhor parte disso?”

Ela olha para mim, lentamente, ainda chorando e, eventualmente, sacode a cabeça.

“A partir de hoje à noite, nós estaremos lá em cima, juntas, seguras e a salvos, e teremos fogueira todas as noites e toda a comida que você quiser. E eu posso caçar e pescar e fazer tudo o que precisamos lá, na frente da casa. Eu nunca mais a deixarei de novo.”

“E Sasha pode ir junto também?” ela pergunta, entre lágrimas.

“E Sasha também” eu falo. “Eu prometo. Por favor, confie em mim. Eu voltarei para você. Eu jamais a deixarei.”

“Você promete?” ela pergunta.

Eu reúno toda a seriedade que consigo e a olho diretamente nos olhos.

“Eu prometo,” eu respondo.

O choro de Bree diminui e ela acaba concordando, parecendo acreditar.

Meu coração se parte, mas eu rapidamente me inclino, lhe dou um beijo em sua testa e me levanto, atravesso a sala e saio pela porta. Eu sei que se eu ficar um segundo a mais aqui, eu nunca conseguirei deixá-la.

A porta se fecha atrás de mim e eu não consigo afastar a terrível sensação de que nunca mais verei minha irmã de novo.

Arena Um: Traficantes De Escravos

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