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II
Na botica

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Quando a menina Adriana entra emfim na botica, que é quasi á esquina da rua Meslée e da rua do Templo, havia lá tanta gente, que os praticantes não sabiam a quem haviam de attender primeiro. Demais d’isso, é muito raro achar uma botica deserta; a concorrencia abunda n’estes laboratorios, onde todos esperamos encontrar remedio ou pelo menos allivio para os nossos soffrimentos ou para os das pessoas que nos são caras. Se isto prova que a profissão é boa, prova tambem que o nosso physico tem amiudadas vezes necessidade de reparo, e que estamos longe de ser perfeitos; é, pelo menos, aquillo de que estamos convencidos ha muito tempo.

Entre os freguezes da botica torna-se saliente uma mulher gorda, que segura pela mão uma criança de quatro a cinco annos, que está de tal modo embrulhada em casacos, aventaes e chales, que é difficil adivinhar se é rapaz ou rapariga; a mãe dirige-se a um dos praticantes:

—Olhe, senhor, o meu pequeno anda ha tres dias com uma tosse, que me parte o coração ouvil-o tossir: são uns ataques como tinha o pae, que padecia d’um catarrho que o não deixava pregar olho toda a noite, e que o levou á cova o anno passado, com uma indigestão que apanhou em consequencia d’um banho de vapor, porque...

—Mas, minha senhora, agora não se tracta de seu marido, visto que morreu; tracta-se do seu pequeno, que está constipado; creio que é por causa d’elle que a senhora cá vem?

—De certo; olhe, aqui o tem, é uma joia.

—É o seu menino?

—Sim, senhor.

—Parecia uma menina.

—Por causa do seu ar malicioso? ah! sim, que elle é muito malicioso; mas veja como está vermelho.

—Não admira! a senhora tral-o tão embrulhado, que o pequeno deve por força sentir muito calor.

—Mas, como elle anda com tosse...

—Não é uma razão para o suffocar.

—O que é então preciso fazer-lhe tomar?

—Uma tisana de flor de malva com mel, e pode tambem dar-lhe um pouco de leite.

—De vacca?

—Já se vê.

—Tinham-me dito que lhe fizesse tomar leite de burra.

—Não é preciso, o menino é ainda muito novo, e não tem cara de quem padece do peito.

—Veja se tem febre.

O praticante quer pegar na mão do pequeno, mas este foge com ella rompendo em altos gritos.

—Então, Dodoro! porque é que não queres que este senhor te pegue na mão? dá-lhe já a mão depressa, patife.

—Não quero! não quero!

—É travesso como um macaco. Faze lá uma careta a este senhor.

—Não quero!

—Então, é ou não velhaco?

—Não lhe tem respeito nenhum.

—Elle é ainda tão pequeno, e depois aprendeu a responder assim com o pae. Isto faz-me lembrar tanto o meu homem! Faça favor de me dar a flor de malva e o mel.

—Sim, senhora, vou avial-a immediatamente.

—E não lhe parece que seria melhor dar-lhe leite de burra?

—Não, senhora; torno-lhe a dizer que o seu menino não precisa d’isso. Mas emfim, se a senhora quer dar-lh’o por força, mal não lhe pode elle fazer.

—Não acha? O senhor não tem cá uma burra?

—Oh! não, senhora, nós não temos leite de burra!

—Que pena! pois ao pé de mim mora uma vizinha que tem uma cabra; o senhor não acha que o leite de cabra lhe faria o mesmo effeito?

—Todos os leites que quizer; o leite não faz nunca mal. Aqui tem a flor de malva e o mel.

—Muito agradecida; isto é para beber quente?

—Tanto quanto seja possivel; sempre é melhor tomal-o quente do que frio...

—Dodoro, atira lá um beijo a este senhor...

Em vez de atirar um beijo, e rapazinho faz uma careta, deitando a lingua de fóra, e resmunga:

—Não quero! não quero!

A mãe pega n’lle e retira-se, exclamando:

—Ah! é exactamente como o pae!...

Uma senhora, de meia edade, com certa garridice no trajo e nas maneiras, dirige-se a outro praticante, requebrando-se toda e fazendo boquinha de sorriso, para deixar vêr uma dentadura completamente postiça, mas que ella suppõe que imita a natural de modo a illudir os mais espertos, e diz-lhe:

—Acontece-me um desastre bem desagradavel, e venho pedir-lhe que me tire isto quanto antes...

—O que é que precisa tirar, minha senhora? Se é algum dente, nós não somos dentistas...

—Não, senhor, não se trata de dentes; por esse lado não preciso nada, graças a Deus! e o senhor bem o deve vêr... mas olhe aqui para cima da minha bocca; o que é que vê?

—Vejo o seu nariz, minha senhora, e de ordinario é n’esse sitio que elle se encontra.

—Sim, senhor, está o meu nariz, que tem uma forma bastante engraçada, posso dizel-o sem desvanecimento; mas sobre o nariz... aqui... á esquerda, não vê nada?

—Ah! sim, vejo uma borbulha... já bastante pronunciada e que está mesmo muito vermelha.

—Está vermelha e pronunciada!... ah! senhor! o que quer isso dizer!...

—Quer dizer que ainda não está madura.

—Madura! como madura? o senhor acha que isto deve amadurecer?

—Naturalmente, minha senhora: não é mais que uma borbulhita, por emquanto, mas assim mesmo tem de seguir o seu curso... amadurecer, crear cabeça, rebentar e sarar...

—Amadurecer, crear cabeça!.. pois eu havia de ter uma borbulha com cabeça no nariz! ah! que horror!... não quero tal coisa!... eu, que nunca tive a mais pequena beliscadura em parte alguma... entende, senhor? em parte alguma... porque me viria nascer uma borbulha no nariz?... qual pode ser a causa d’isto?

—Ignoro totalmente, minha senhora; mas uma borbulha nasce sem se saber porquê; isso pode acontecer a toda a gente!...

—Oh! não, senhor, quando se é d’um aceio minucioso, isto não deve acontecer... Eu não fui metter o nariz em sitios insalubres, pode acreditar-me!

—Estou persuadido d’isso, minha senhora!

—Lavo-me vinte vezes por dia! esfrego-me com cold-cream, com vinagre de Bully, com agua de Portugal, com essencia de jasmim...

—São coisas de mais, minha senhora, é preciso não abusar dos cosmeticos, isso produz ás vezes um effeito muito diverso d’aquelle que se espera...

—Emfim, o senhor vae-me dar alguma coisa para fazer desapparecer isto que me nasceu aqui, logo no nariz... é preciso que se não veja nem o signal...

—Minha senhora, isso ha de ser muito difficil... seria mesmo perigoso; com o nariz não se deve brincar... Já consultou o seu medico?

—Um medico para uma borbulhita... ora essa. Em primeiro logar, eu não posso vêr os medicos, detesto-os, querem sempre purgar-me! E eu não me quero purgar, não quero!

—Faz mal, minha senhora, porque se se tivesse purgado, é provavel que essa borbulha não lhe nascesse no nariz.

—Com que é preciso untar esta borbulha para que desappareça immediatamente? Deve haver algum remedio.

—Minha senhora, advirto-a de que será perigoso; se faz recolher essa borbulha, hão de rebentar-lhe muitas outras n’outros sitios!

—N’outros sitios não me importa, comtanto que não seja na cara.

—A senhora quer?

—Sim, senhor, vou ámanhã a uma soirée... quero ir sem borbulha.

—Então aqui tem ceroto de chumbo, minha senhora, para fazer seccar a sua borbulhinha...

—Oh! muito obrigada, vou untar bem todo o nariz!...

—Só a borbulha, minha senhora... mas previno-a de que lhe hão-de nascer outras...

—Muito bem... farei recolher todas.

A senhora pega no seu boiãosinho de ceroto, paga e vae-se embora, muito contente por ter com que curar ou pelo menos dissimular a sua borbulha.

É substituída por um sujeito moço, bem abafado, mas que tem máu parecer, e se approxima do praticante com um ar acanhado. Os estudantes de pharmacia sabem muito d’isto; adivinham logo por que razão este senhor os quer consultor e vão ao seu encontro. Effectivamente, elle fala-lhes ao ouvido; e então fazem-n’o passar para uma salinha que fica por traz da botica. Alli, o homem explica o seu caso, sempre a meia voz. Dão-lhe uma caixa de pilulas, umas poucas de raízes de morangueiro para fazer tisana, uma garrafa com um xarope já preparado, e o homem leva tudo isto, dando um profundo suspiro.

Os praticantes da pharmacia olham uns para os outros sorrindo, e um d’elles murmura:

—Ita dis placitum, voluptatem ut moeror

Comes consequatur!...

—Os deuses! responde outro, quer dizer, foi só Mercurio que assim o quiz! É o Deus do commercio; terá lá dito comsigo: Isto ha-de-me fazer vender muito.

—Meus senhores! vamos! tomem cuidado nas suas palavras! diz o rapaz que está sentado á carteira.

—Oh! não ha perigo, as senhoras não sabem latim!

Chega um velho gordo, bufando, e atira comsigo para cima d’uma cadeira, dizendo:

—Ah! senhores, que dôr! Irra! que dôr!

—O que foi isso? deu alguma queda?

—Não, oh! não dei queda nenhuma; não me faltava mais nada!... É uma dôr que me apanha desde o quadril até ao joelho, do lado direito...

—E essa dôr deu-lhe agora quando ia andando?

—Deu-me agora? Ha tres semanas que padeço d’ella. Não lhe tenho feito nada, porque dizia sempre commigo! Isto ha-de passar! mas, qual historia! não me passa. Por isso é que me resolvi a vir...

—Teria feito melhor em vir mais cedo.

—Ah! é que eu não gosto de tomar remedios de botica! Receitem-me tuberas, lagosta, Champagne, então bem! applicarei a receita immediatamente.

—Tem talvez abusado de tudo isso, e ahi está o motivo por que tem agora dores. Consultou já algum medico?

—Tenho consultado dez, doze, vinte. Cada vez que me acho n’um sitio onda ha um medico, tracto logo de o consultar.

—O que lhe disseram elles que era?

—Um diz que é rheumatismo; outro que é uma dôr sciatica; este diz que é gotta; aquelle, que é só cançaço. Todos elles me têem receitado umas fricções.

—De quê?

—De balsamo de Opodeldoch, de balsamo Tranquillo, de balsamo de Fioravanti! e ainda muitos outros balsamos... Eu, como tenho excellente rhum, verdadeiro rhum da Jamaica, tive a lembrança de dar umas fricções com elle...

—Não era mau.

—Não é verdade? Ora, como não tenho criado, pedi ao meu porteiro que me viesse dar as fricções; elle promptificou-se da melhor vontade. Dei-lhe o rhum, e deitei-me sobre o lado que me não dóe. O porteiro esfregava-me com toda a força... fazia-me arder a pelle como todos os diabos! O homem descançava muito a miudo. Tenho uma vez a lembrança de me voltar, e dou com elle a beber-me o rhum mesmo pela botija; o maroto esfregava-me em secco! Nunca mais quiz que elle me desse as fricções. Os senhores podem-me arranjar uma mulher para me fazer este serviço, antes quero uma mulher que um homem...

—Podemos inculcar-lhe uma mulher que deita bichas e ventosas, e tambem dá fricções quando é necessario.

—É moça?

—Cincoenta a sessenta annos.

—Preferia-a de vinte e cinco a trinta.

—Que importa, comtanto que ella lhe dê bem as fricções. Uma mulher nova poderia causar-lhe distracções, e é isso que é preciso evitar.

—Ah! o senhor acha que as distracções são contrarias á minha dôr?...

—Certamente. Tambem seria bom deitar umas ventosas e alguns causticos volantes.

—Oh! emquanto estiver n’este estado não ponho difficuldades a coisa nenhuma, farei uso de tudo para me curar mais depressa. Aqui tem a minha morada, mande-me lá ámanhã a tal mulher com as bichas, as ventosas e os causticos.

—Mas não vá applicar tudo isso ao mesmo tempo.

—Com certeza que vou; a coisa assim vae mais depressa! Olhe, eu nunca faço remedios! mas quando me resolvo a isso, então não quero privar-me de nada. Dê cá sempre um balsamo qualquer, tractarei de me untar e esfregar eu mesmo emquanto a tal mulher não apparece.

Emquanto estão aviando este senhor, entra muito afflicta uma mulher de lencinho na cabeça, e dirige-se logo ao rapaz que está sentado á carteira:

—Ah! meu caro sr. Narciso! que má sorte que me persegue desde certo tempo para cá! Mal a minha pequena está restabelecida do catarrhal e o meu rapaz do sarampo, e ahi me cae o meu homem doente, sem poder trabalhar! é o remate da desgraça!

—Mas o que é que o seu marido tem?

—Ora! uma molestia exquisita... mas parece que é perigosa. Faça ideia, tem um anthraz!

—Um anthraz! que me diz?!

—Foi o que disse o medico, que é um sabio, e que disse logo: Não tem que vêr! é um anthraz! Aqui está o que tem o meu André, nasceu-lhe um anthraz nas costas! Aquillo foi um golpe de ar, não é verdade?

—Não, mas é uma coisa muito má; a senhora deve trazer uma receita.

—Sim, senhor, oh! de certo o medico escreveu tudo isto... Levará muito tempo a fazer?

—Não, faça favor de se sentar e de esperar cinco minutos; vou já despachal-a.

—Então espero.

Entra na botica, com ar assustado, uma senhora já velha, trazendo um cãosinho atrelado, e exclama:

—Meus senhores, é verdade estar já em Paris, ter já feito muitos estragos? ataca com muita força?

—Perdão, minha senhora, mas de quem é que falla?

—Do cholera, senhor, disseram-me que já estava em Paris, que tinha apparecido no arrabalde de Santo Antonio.

—É a primeira vez que ouço falar de similhante coisa, minha senhora.

—Devéras, não tem ouvido falar em tal?

—Não, minha senhora.

—O que confirmava os meus receios, foi que ao passar por deante de uns urinoes, reparei que os estavam alimpando com chloreto.

—Isso faz-se muito amiude, é para destruir o mau cheiro...

—Acha que é só para esse fim? Devo tambem dizer-lhe que tenho uma amiga a quem acaba de morrer o marido muito repentinamente.

—Uma apoplexia, talvez.

—Oh! não, senhor, elle não era sanguineo; mas voltou uma noite para casa com uma lagosta e um salsichão de Lyão, era o seu petisco favorito acompanhado de muita cerveja. Comeu menos mal; mas no outro dia pela manhã estava morto e da côr do salsichão.

—Teve uma indigestão, minha senhora.

—Mas elle já muitas vezes tinha comido tanto como d’essa vez e não morrêra.

—Essas coisa não acontecem nunca duas vezes, minha senhora.

—Ahi está tambem o pequeno da minha porteira, um rapazito sadio e córado, pois está ha tres dias com uma dor de barriga e com uma dysenteria.

—Isso é muito commum nas creanças.

—Emfim, acabo de encontrar um sujeito que jantou em minha casa ha quinze dias, e estava então de perfeita saude. Achei-o muito amarello, com os olhos encovados, mudado a ponto que não me pude conter que lhe não dissesse: «Ai! Jesus! que cara que o senhor tem!» então está doente? E elle responde-me: Não sei o que tenho, sinto dores por todo o corpo. É assim que principia o cholera?

—Não, minha senhora, esse sujeito tem provavelmente uma grande constipação, é o que é.

—Oh! não importa, asseguro-lhe que anda no ar alguma coisa que não é natural. Eu esta manhã tinha quasi frio quando me levantei, e agora estou com muito calor!

—É que andou muito depressa.

—Não, senhor; o Zozor obriga-me a parar a cada instante; o pobre animalsinho tambem não está no seu estado normal... Faça favor de me dar uma pouca de camphora, sei que é um preservativo contra as más emanações.

—Vou dar-lh’a immediatamente.

—Metterei um pedaço no meu espartilho: isso não me pode fazer mal.

—Pelo contrario, minha senhora.

—Ha de dar-me tambem um pouco de chloro; é outro preservativo.

—Liquido ou solido, minha senhora?

—Não comprehendo.

—Minha senhora, solido é em pó; liquido é em garrafa, uma agua preparada.

—Ah! eu não conhecia o solido. Dê-me dos dois, farei uso de ambos; lavar-me-hei com um, e trarei commigo o outro. Ah! tem arruda?

—Tenho, sim, minha senhora.

—É tambem um preservativo.

—Afugenta os insectos.

—Oh! e preserva tambem do mau ar, dê-me uma pouca; hei de trazel-a sempre no espartilho.

—Fará a senhora muito bem.

—A alfazema tambem tem propriedades reconhecidas?

—Tem, sim, minha senhora, é aromatica.

—Dê-me tambem uma porção de alfazema, que é para trazer nas algibeiras. Que mais me poderá o senhor dar que seja contra os maus ares? Ah! patchouli... tem patchouli?

—Não, minha senhora, isso vende-se nas perfumarias; mas olhe que o patchouli cheira muito bem mas não combate o mau ar, e, se abusar d’elle, pode alguma vez atacar-lhe o systema nervoso.

—Ah! eu não quero nada que ataque o meu systema; a mais pequena coisa me irrita os nervos!

—Então, minha senhora, leve antes valeriana, é uma raiz com que se faz uma infusão como o chá. Comtudo, devo prevenil-a de que não é agradavel de beber, e que tem muito mau cheiro, mas é muito saudavel.

—Oh! dê-me cá d’essa raiz, bebel-a-hei e tral-a-hei sempre commigo.

O praticante dá a esta senhora tudo quanto ella lhe pede; ella enche as algibeiras e o seio de camphora, arruda, chloro, alfazema, valeriana, e leva uma garrafa de agua chloretada. Vae deixando por onde passa uma mistura de cheiros cuja reunião nada tem de agradavel.

—Se esta senhora não tem á noite uma forte enxaqueca, será um grande milagre! diz um dos rapazes.

—Não falando em todos os gatos que vão correr e saltar atraz d’ella, attrahidos pelo cheiro da valeriana, que os faz quasi endoudecer. Se não gosta de gatos, vae ver-se muito apoquentada.

Entra na botica um pedreiro mostrando o braço esquerdo todo ferido; ia sendo esmagado por uma trave que quasi lhe caíu em cima, mas apenas apanhou um forte raspão no antebraço. Curam-n’o, ligam-lhe a ferida, dão-lhe um frasco de agua-ardente camphorada, para elle embeber o apparelho, e, quando quer pagar, despedem-n’o dizendo:

—Nós não acceitamos nada aos doentes pobres! Vá-se tractar, e, se tiver precisão de mais alguma coisa, não receie vir pedil-o que não lhe custará nada.

Hão-de convir que, quando a gente vê os pharmaceuticos mostrarem-se tão solicitos em soccorrer os desgraçados, não deve ter mais a confiança de os tractar por boticarios.

No emtanto têem entrado na pharmacia muitas creadas de servir; falam todas ao mesmo tempo, e dizem:

—Vá! despache-me, que estou com pressa.

—Oh senhor, eu tenho tosse: dê-me rebuçados de althéa! são muito bons! Aqui está um remedio que me agrada.

—A mim dóe-me a garganta...

—Tome gargarejos de agua de cevada com mel rosado...

—Minha ama quer pomada para os beiços, não ha pomada que lhe chegue; eu não uso d’isso, e tenho a bocca mais fresca do que ella.

—Eu fiz um gallo na testa, e dóe-me muito.

—Deu alguma pancada?

—Foi n’uma porta. Eu estava muito quieta, de repente abriram-n’a... eu não esperava...

—Provavelmente estava a escutar?

—Effectivamente escutava; tinha chegado o magnetizador?

—O que é isso de magnetizador?

—É um sujeito que anda ensinando a senhora a ser somnanbula lucida, para fazer experiencias em sociedade.

—Ah! sua ama quer ser somnanbula?

—É verdade, metteu-se-lhe aquillo na cabeça; por mais que o marido lhe diga: «Olha que vaes adoecer!» a senhora não desiste. E, quando chega o magnetizador, mandam-me embora.

—E o marido?

—Meu amo? oh! esse está na repartição; sae de casa ás nove horas, e só volta ás cinco, é coisa eabida.

—Percebo. Onde é que deu a pancada?

—Aqui, na testa... apalpe...

—Ah! sim, cá sinto.

—Meu amo disse-me que não precisava fazer-lhe nada, que os gallos na testa não são perigosos. Elle deve entender d’isto...

—Tome sempre cosimento de vulneraria, será mais prudente.

—Então arranje-me isso n’um instante.

Abre-se a porta, e sente-se um cheiro fortissimo; é a velha dos preservativos que volta, dizendo:

—Senhor, esqueci-me de levar agua de melissa dos Carmelitas; é uma coisa indispensavel quando a gente se sente incommodada; podem-se tambem esfregar as fontes com ella; é um preservativo... faça favor de me dar um frasco.

—Aqui está, minha senhora.

—Esta é da verdadeira, não é assim? o senhor não quererá enganar-me! É dos verdadeiros Carmelitas, da verdadeira rua Taranne?

—Minha senhora, eu não conheço duas em Paris:

—Muito agradecida.

A velha mette o frasco na algibeira e retira-se.

A menina Adriana entra emfim na pharmacia, exclamando:

—Ah! cá estou finalmente! ainda bem! pensei que não chegaria nunca...

—Tem alguem doente em casa, menina Adriana?

—Tenho; é minha ama que está com o seu ataque nervoso, com a sua crise, e com um grande tremor. Tome, aqui tem a receita, avie-me depressa... eu vim a correr quanto pude, agora não me demore muito tempo...

—Sente-se, que vou já despachal-a.

—Ah! agradeço-lhe muito a sua bondade! é que me faz muita pena vêr soffrer a pobre de minha ama.

Começa o praticante a aviar a receita da sr.ª Montémolly, quando se abre de novo a porta, e invade a pharmacia uma mistura de cheiros activissimos; é a senhora que tem medo do cholera, que torna a entrar e vae importunar o rapaz que está ao balcão, exclamando:

—Ah! senhor! não pode fazer idéa de como cheira mal a rua Meslée!...

—Sinto muito, mas que quer que lhe faça?

—Anda alguma coisa no ar, oh! certamente, o ar está máu n’este momento!...

—É talvez uma trovoada que se prepara!...

—Oh! o que se prepara é outra coisa. Quer ter a bondade de me desrolhar o meu frasco de agua de Melissa? Se me dá licença, vou esfregar o nariz e as fontes, e então poderei affrontar com menos susto os miasmas da rua.

—Faça o que quizer, minha senhora, aqui tem o seu frasco aberto; quer uma chicara?

—Bastará a ponta do meu lenço, vou embebel-a muito bem...

Effectivamente, esta senhora deita agua de Melissa no lenço, depois esfrega as fontes, lava o nariz, introduz tanto quanto pode o lenço molhado nas ventas, esfrega tambem a testa, deita agua de Melissa na palma da mão, depois aspira-a a ponto de espirrar oito vezes a fio. Emfim acabada esta ceremonia, torna a rolhar o frasco, mette-o na algibeira, vae-se, dizendo:

—D’esta vez, creio que estou bem preservada do máu ar!...

—Oh! sim, minha senhora, está bem preservada, exclama o aprendiz de boticario. Folgo de crer que tambem nós o estamos agora das suas visitas. Que fregueza!...

—Mas é ella que empesta a gente, diz Adriana; o que foi então que o senhor deu áquella senhora?

—Tudo o que ella quiz!...

—Qual é a doença d’ella?

—A doença é medo, que é o mal mais commum e que nos manda cá mais gente. Esta senhora tem medo do cholera; outras têem medo d’uma molestia de que não apresentam o mais pequeno symptoma mas de que se julgam ameaçadas... o medo não raciocina! Ninguem faz idéa de quantos freguezes elle nos arranja...

—Ai! com a bréca! exclama um dos praticantes, eil-a ahi outra vez de volta comnosco!...

—Quem?

—A senhora dos preservativos...

—Ora essa! nada, isso agora torna-se forte de mais. Que mais quererá ella lavar aqui? isto começa a dar-me cuidado.

A senhora, que recende fortemente, abre a porta e pára no limiar, dizendo:

—Perdão, meus senhores, uma pergunta, se me dão licença... Se eu tomasse tabaco?... É uma coisa que tambem deve preservar, penso eu?...

—Sim, minha senhora, de certo, tome tabaco... tome mesmo muito; não cheirará mais nada!...

—Então faça favor de me dar uma porção de tabaco...

—Nós não vendemos tabaco, minha senhora, no boulevard encontra-o logo.

—Corro a compral-o. Cheirarei primeiramente, e depois talvez me arrisque a fumar um cigarrinho; as senhoras agora fumam, não é verdade?

—Sim, minha senhora. Oh! as senhoras fumam, fazem agora tudo o que fazem os homens; isso não as aformoseia, mas diverte-as...

—Oh! mas eu cá, não é com o fim de me aformosear, é para affrontar os máus ares. Vou comprar tabaco...

—Vá, minha senhora, vá! diz o joven pharmaceutico fechando-lhe a porta nas costas; cheire, fume, masque mesmo, se isso lhe dá prazer mas, por favor, deixe-nos socegados um instante! Tome, menina Adriana, aqui tem o remedio para sua ama...

—Obrigada; vou de corrida levar-lh’o... faz-me tanta pena vel-a soffrer!... Boa tarde, meus senhores...

A creada grave retira-se, e d’esta vez chega a casa sem ter tido outros encontros. Quando passa diz á porteira:

—Aqui me tem; cá trago o remedio; pensei que não acabavam de me aviar hoje; havia muita gente na botica...

—Pois olhe, não vale a pena apressar-se...

—Então porquê, sr.ª Bedou?

—Porque sua ama saíu de carruagem com a sua amiga, ha já bastante tempo...

—A senhora saíu! oh! isso era de esperar! vá lá uma pessoa estafar-se a correr para dar conta do seu recado! vá lá a gente privar-se de conversar com os seus conhecimentos! Ah! esta não me ha de esquecer...

A menina Lisa

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