Читать книгу Uma bala com o meu nome - Susana Rodríguez Lezaun - Страница 10

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O telemóvel acordou-me do sono profundo e agradável em que me perdera depois de me render à evidência de que não conseguiria dormir sem ajuda química. Tinha a boca pastosa e a cabeça toldada. Custou-me tanto a encontrar o telemóvel que a chamada se desligou, embora voltasse a tocar imediatamente. Quem quer que fosse, não tencionava render-se, portanto, acendi a luz do candeeiro de noite e verifiquei as horas no despertador enquanto deslizava o ícone verde do telemóvel. Eram onze e meia da noite. A essas horas, só se anunciam desgraças.

— Zoe! — gritou um homem do outro lado da linha. — Estás acordada?

— Agora, sim — balbuciei. — Quem é?

Não conseguia fixar o olhar no nome no ecrã do telemóvel.

— Sou o Gideon Petersen. Zoe, aconteceu…

— Quem? — insisti.

— O Gideon! O teu chefe! O diretor do museu! Meu Deus, Zoe, estás bêbada?

— Não, Gideon, só estava a dormir profundamente. Lamento muito. Estou a ouvir. O que se passa?

— Tens de vir ao museu agora mesmo. Houve um roubo.

Essas palavras tiveram o mesmo efeito em mim do que um duche de água gelada. Abri os olhos, levantei-me com um salto e o meu cérebro e o meu corpo entraram em ação imediatamente.

— Um roubo? O que levaram?

— Parece que entraram na exposição das joias. Mas isso não é o pior.

Se isso não era o pior, não imaginava o que podia vir a seguir.

— Deram um tiro a um dos guardas. Morreu.

— Meu Deus, meu Deus, meu Deus…

Não era capaz de pensar em nada. Nunca em toda a história do museu acontecera algo parecido. É claro que tinham acontecido pequenos atentados contra alguma obra em concreto e, uma vez, tinham frustrado uma tentativa de roubo mesmo antes de os ladrões acederem ao edifício. Os golpes do martelo enorme com que tentavam abrir um buraco na parede tinham-nos denunciado. Mas nunca se consumara o assalto e muito menos morrera alguém a tentar impedi-lo.

— Quem é o morto? — perguntei, quando recuperei minimamente a compostura.

— Não tenho a certeza — reconheceu Gideon —, quem quer que fosse que estava a trabalhar. Não sei o seu nome.

Um silêncio espesso espalhou-se através da linha. Durante uns segundos, partilhámos medos e preocupações. No fim, Gideon quebrou o silêncio.

— Zoe, podes vir? Aqui, há uma confusão tremenda e a polícia quererá falar com todos nós.

— É claro. Dá-me uns minutos. Estarei aí o mais depressa possível.

Desligámos sem nos despedir. Com o telemóvel ainda na mão, de pé junto da cama, assaltou-me novamente o receio de que alguém descobrisse o deslize que cometera nessa mesma tarde na oficina da restauração. Tremendo, liguei a Noah e expliquei o que acontecera. Parecia sinceramente espantado, mas, sem dúvida, a falta de proximidade afetiva com o museu fazia-o pensar com mais clareza.

— Não acho que precises de dizer a alguém que estiveste lá esta tarde. Lembra-te de que o Scott apagou as imagens. Espero que ele não seja a vítima — murmurou, antes de prosseguir com as suas reflexões. — É só a minha opinião. É claro que tu podes fazer o que achares conveniente, mas penso que, se falares da tua visita, só vais conseguir meter-te em problemas.

— Tens razão — reconheci, enquanto procurava roupa limpa no armário. — Por enquanto, vou ao museu e, se não for estritamente necessário, não mencionarei o meu passeio pela oficina.

— Queres que vá buscar-te e que te leve? Estás demasiado nervosa para conduzir.

— Obrigada, estou bem. Não te preocupes. Ligo-te quando voltar para casa.

— Estarei à espera.

Vesti-me a toda a velocidade e corri até ao carro. Pelo caminho, fantasiei com todo o tipo de situações possíveis, cada uma mais sangrenta e terrível do que a outra. Não sabia o que ia encontrar e a minha imaginação voou livremente durante os quinze minutos seguintes.

O cordão policial impediu-me de aceder ao interior do estacionamento do museu, apesar de me ter identificado perante o agente impertérrito que vigiava a entrada, portanto, tive de estacionar na rua de trás e ir a pé até à porta, onde voltei a identificar-me.

O estacionamento e o pequeno passeio que leva até ao edifício central brilhavam como uma feira de uma vila. Luzes azuis, brancas e vermelhas lançavam os seus brilhos estroboscópicos contra as paredes e para o céu. Um grupo nutrido de pessoas apinhava-se num dos cantos da zona ajardinada, muito perto das sebes que delimitam o passeio da zona asfaltada. Distingui vários agentes uniformizados, duas ou três pessoas à paisana e outras tantas cobertas pelo fato-macaco branco característico que tantas vezes vira nos capítulos da CSI.

Assim que me deixaram passar, corri para o vestíbulo do museu à procura de Gideon. Encontrei-o sentado numa das cadeiras estofadas que costumam estar junto da parede, mas que, nesse momento, tinham posto muito perto do posto de vigilância, que permanecia vazio. Ao seu lado, dois dos chefes da fundação cochichavam em voz baixa. Gideon tinha má cara. Mexia as pernas convulsivamente e escondia as mãos nos bolsos do casaco, que abotoara, apesar do calor da temperatura noturna.

Gideon era um homem de uma determinação inquebrável, um gestor fantástico e um negociador hábil que geria o museu com mão de ferro coberta com luva de veludo. Tudo o que acontecia passava pelo escritório dele primeiro: Desde uma compra, um empréstimo ou a simples recolocação de uma peça, até à contratação de todo o pessoal. E, quando digo tudo, é tudo, desde os peritos até aos supervisores da limpeza, passando por rececionistas, administrativos ou os responsáveis pela comunicação e as relações com os meios de comunicação social.

Hoje, no entanto, o cabelo preto penteado para trás, normalmente pulcro e brilhante, pendia enfraquecido por cima da testa suada. Umas rugas profundas atravessavam-lhe a testa e a expressão descendente da sua boca parecia a de um idoso desorientado que não se lembrava de quem era nem de onde estava.

— Olá — cumprimentei, quando cheguei ao seu lado.

Peter e Brenda calaram-se imediatamente e esboçaram um sorriso forçado, enquanto o diretor do museu mal foi capaz de me olhar nos olhos.

— Isto é uma tragédia — murmurou, como se falasse para si próprio —, uma tragédia.

— Tu não tiveste a culpa.

Baixei-me à frente dele para que pudesse ouvir-me bem. Tremia-lhe uma pálpebra e parecia prestes a chorar.

— Isto vai ter consequências, Zoe. Consequências muito desagradáveis. Roubaram-nos! Levaram três peças muito valiosas. Preciso que o Sanders venha. Está há semanas de baixa. Liguei-lhe, mas a esposa disse-me que está muito doente e que não pode sair de casa, por enquanto. A assistente dele deve estar prestes a chegar. Vai contar-nos os detalhes.

Robert Sanders era o curador da exposição de joias e, com efeito, estava há quase um mês sem aparecer no museu. Ninguém se surpreendera com a baixa por doença, já que, antes de a comunicar, já passara vários dias a deambular pelo edifício como uma alma penada.

Gideon levantou o olhar e levantou-se com ar lento. Eu imitei-o e segui a direção do seu olhar. Descobri um homem corpulento que se aproximava de nós a passos largos. Cabelo avermelhado desordenado por cima de uma cabeça de bom tamanho, ombros largos, peito poderoso e uma barriga que começava a sobressair por cima da linha do cinto. À primeira vista, aparentava uns quarenta e cinco anos, ainda que, ao aproximar-se, lhe desse mais três. Uma sombra escura apagava-lhe a parte inferior da cara. Mantinha o sobrolho franzido e as sobrancelhas juntas, como se estivesse concentrado nuns pensamentos complicados e importantes.

— E a senhora é…? — perguntou, dirigindo-se a mim.

— Zoe Bennett, responsável pela área da restauração do museu.

— Inspetor Max Ferguson.

Apertou a mão que lhe estendia e espremeu-a entre os seus dedos enormes. Recuperei-a o mais depressa que pude, com medo de não conseguir agarrar num pincel nos próximos dias.

— Já falaram com a família do guarda? — perguntou Gideon, ao meu lado.

— Dois dos meus agentes dirigem-se para casa dele neste momento — informou, com sobriedade.

— O que aconteceu? — quis saber.

— Pelos dados com que contamos, o senhor Scott Miller saiu para o exterior pouco depois das dez da noite, não sabemos se para fazer a ronda ou atraído por alguma circunstância, e dirigiu-se para as sebes do fundo, onde foi abatido com dois tiros.

Senti que todo o corpo se arrepiava. O rosto corado e atónito de Scott desenhou-se na minha mente durante uns segundos. Abanei a cabeça para afugentar a imagem.

— Então, toda a gente que está lá fora, está à volta…

— Do cadáver.

O inspetor não teve reparos em acabar a minha frase e observar a minha reação às suas palavras.

— Quem pode ter feito isto?

Falava para mim própria, mas Ferguson deu-se por aludido.

— Supomos que a mesma pessoa que levou as joias, mas, por enquanto, não temos nenhuma imagem que mostre um intruso, nem dentro nem fora do recinto. Quem quer que tenha atraído o vigilante até à rua teve o cuidado de permanecer fora do alcance das câmaras. Vemos o senhor Miller a atender uma chamada telefónica mesmo antes de sair, mas, no seu telemóvel, só consta um número privado. Difícil de encontrar, mas estamos a tentar.

— E o que pode dizer-me sobre o roubo? — perguntei.

— Pouco ou nada, por enquanto. Os meus homens estão a examinar a gravação das câmaras de vigilância, mas, até agora, não vimos ninguém a entrar ou a sair da sala da exposição. É possível que tenham pirateado o sistema antes de entrar ou que tenham posto um ecrã falso à frente do alvo. Não é difícil enganar um sistema de vigilância tão obsoleto como o deste museu. De facto, o alarme da sala em que se cometeu o roubo é tão fácil de desativar que até um aprendiz de ladrão conseguiria fazê-lo. Uma caixa enorme, uma luzinha que pisca e dois cabos. Por favor! Em minha casa, tenho um sistema mais sofisticado. O sistema de vigilância deste museu deveria estar num museu! — exclamou, entre gargalhadas grotescas que ninguém apoiou.

Gideon remexeu-se e resmungou baixinho. As palavras do inspetor eram uma ofensa para ele. Como diretor do museu, era o responsável máximo pela segurança do edifício e do seu conteúdo. As decisões relativas à invulnerabilidade de todas e cada uma das salas precisavam da sua assinatura. Quer dizer, se alguma coisa estava mal, a culpa era inteiramente dele.

— O museu conta com os últimos avanços em segurança — queixou-se, enfrentando o polícia.

Esse homem já se parecia mais com o Gideon Petersen que eu conhecia. O homem choroso que encontrara ao chegar não tinha nada a ver com a pessoa decidida e ativa com que costumava lidar.

— Câmaras de vídeo e abertura de portas através de cartões magnéticos não são grandes medidas de segurança. Qualquer ladrão conseguiria ultrapassá-las sem demasiado esforço. E se tiver ajuda do interior, seria ainda mais fácil.

— Ninguém do museu está envolvido neste roubo infame e nesse assassinato monstruoso! — bramou Gideon. — Com quem acha que está a lidar? Com um grupo de delinquentes sem escrúpulos? Todo o meu pessoal trabalha comigo há anos, foi cuidadosamente selecionado pelo comité da fundação designado para o efeito e não chegam até aqui se não tiveram um currículo amplo e impecável.

Pus-lhe uma mão no braço, tentando acalmá-lo. Tremia com violência. Era evidente que estava a conter-se. O polícia observou-o, como se tencionasse desafiá-lo a dar um passo em frente e continuar com a disputa. O aparecimento de um agente uniformizado pôs fim à luta de galos.

— Inspetor! — chamou-o, quando chegou ao seu lado. — Temos uma coisa nas imagens.

Ferguson virou-se e seguiu o agente. Gideon colou-se aos seus calcanhares e eu imitei-o. Não queria que a situação aquecesse mais do que o necessário.

Outro agente teve de se desviar para permitir a passagem do seu superior para o interior do espaço pequeno que albergava o centro do controlo de segurança. Da última vez que estive tão perto, Scott estava do outro lado do balcão. Agora, estava morto. Não pude evitar sentir um arrepio. Talvez devesse contar-lhes que estive ali… ou talvez não. Continuava a pensar no assunto e, para ser sincera, não encontrava nenhum motivo de peso para confessar a minha… vamos chamar-lhe travessura, uma estupidez que, por outro lado, não se repetiria. Contar isso custar-me-ia o emprego, para além de me pôr numa situação muito comprometedora na investigação. Portanto, segui-os em silêncio e procurei um espaço atrás deles para ver o que o agente descobrira.

Ferguson cheirava a tabaco e a suor, uma mistura desagradável que se completava com o hálito mentolado que exalava cada vez que falava. Deu-me a impressão de que tentava conter a necessidade de nicotina chupando um rebuçado, mas o resultado olfativo era uma mistura inaceitável para a minha pituitária. Esforcei-me para manter a distância, algo impossível no interior do cubículo de segurança, portanto, respirei fundo pela boca e sustive a respiração, expirando o mais devagar que pude para não me ver obrigada a voltar a cheirá-lo demasiado depressa.

O técnico que controlava os comandos do vídeo esperou por uma indicação do inspetor para acionar o botão.

— Juntei as imagens dos últimos minutos de vida do senhor Miller. Examinei as duas horas anteriores ao acontecimento e não vi nada de importância. Como vê — explicou, num tom monótono, ignorando o resto das pessoas que se juntavam à volta dele —, o Miller recebe uma chamada no seu telemóvel particular. Ouve, sorri, diz algo muito breve e desliga. Depois, guarda o telemóvel no bolso das calças e sai do balcão. Nas imagens seguintes, vemo-lo a abandonar o edifício pela porta lateral. Não parece que tenha tentado usar o rádio ou o telemóvel para informar o colega.

— Tencionava voltar em pouco tempo — murmurou Ferguson. — Onde estava o outro guarda, o senhor García?

O agente manipulou várias teclas e apontou para um dos pequenos ecrãs. Vimos o segundo vigilante a percorrer muito devagar um dos corredores do terceiro andar do edifício. Quase parecia mais um visitante, a passear com as mãos atrás das costas e a desfrutar dos quadros que enfeitavam a parede.

— Declarou que o Miller não lhe disse que tencionava sair, que ele fez a ronda com normalidade e que, quando ouviu os tiros e correu até onde estava o colega, já era demasiado tarde.

Ferguson assentiu e indicou com um gesto que continuasse com a emissão das imagens gravadas. As câmaras seguiram o percurso de Scott até à porta e mostraram-no a avançar com passo decidido através do jardim, em direção às sebes do fundo. Sustivemos a respiração quando se aproximou do lugar onde todos sabíamos que morrera. Scott parou e uma sombra preta e difusa apareceu no ecrã. Estavam demasiado longe do foco da câmara para se conseguir uma imagem nítida, mas parecia que o assassino estava do outro lado das sebes, na calçada da rua. Duas chamas repentinas branquearam o ecrã. Gideon e eu demos um salto. Apesar de carecer de som, as imagens eram horripilantes. Quando a câmara voltou a focar-se e conseguiu oferecer uma gravação nítida, o atacante já desaparecera e Scott era apenas um cadáver na erva.

Não conseguia desviar o olhar do corpo que jazia no chão. De facto, ainda estava lá, a poucos metros de distância de nós. Ver os factos através de um ecrã pequeno dava-lhes um toque de irrealidade a que a minha mente tentava agarrar-se com todas as suas forças, mas o meu lado consciente e responsável não parava de me repetir que o homem que me observava, envergonhado, há poucas horas, era, agora, um corpo ensanguentado e sem vida e que, se me virasse para a esquerda e atravessasse a porta, poderia vê-lo com os meus próprios olhos.

— A chama impede-nos de ver para onde o assassino fugiu, se entrou num carro ou fugiu a correr, ainda que, a esta altura, de pouco nos servisse.

— Certo — concordou Ferguson. — E as câmaras de trânsito?

— Estão a analisá-las. Além disso, uma patrulha está a percorrer os comércios próximos para o caso de algum contar com um sistema de videovigilância. Não deixámos pedra por remexer, inspetor.

O aludido deu-lhe uma palmadinha nas costas e fez uma careta que devia ser um sorriso, mas que se assemelhou mais a uma fenda reta alongada e um pouco curvada para cima num dos extremos. Como uma navalha. Mostrou uns dentes grandes e brancos e um dente lascado na diagonal no centro que lhe dava um ar de vândalo que condizia perfeitamente com o seu aspeto geral, áspero e descuidado.

Nesse momento, apareceu Judy Barton, a assistente de Sanders, o curador da exposição de joias. Gideon fez as apresentações formais e fui testemunha de como o inspetor examinava Judy de cima a baixo, sem deixar um centímetro por avaliar. Devia ter gostado do que viu, porque, quando voltei a olhar para a cara dele, sorria sem dissimulação, mostrando a totalidade dos dentes.

— Preciso que me diga com exatidão que joias levaram — exigiu Ferguson —, o seu valor, a sua procedência, a quem pertencem e como raios é possível que as tenham levado sem que algum dos alarmes tocasse.

Judy estava muito nervosa. Esfregava as mãos e os seus olhos dançavam, frenéticos, entre o polícia e Gideon, talvez em busca de apoio e conselho. O diretor do museu, já recuperado do choque inicial, tomou finalmente as rédeas da situação e parou junto da assistente trémula.

— Vamos para a sala. Não tens de te preocupar, Judy, ninguém te culpa pelo que aconteceu.

— O Robert… — balbuciou.

— O Robert continua doente. A esposa disse-me que estava bastante mal, mas falarei com ele assim que for possível.

— Não antes de mim — indicou Ferguson. — Vamos?

— Gideon — disse, agarrando-lhe o braço com suavidade. Já não tremia. — Se não precisares de mim, eu gostaria de ir para casa.

— Claro, Zoe. Muito obrigado por vires tão depressa. Ajudaste-me muito.

— Por favor, liga-me se precisares de mim. Não acho que consiga dormir muito esta noite.

— Também deves estar disponível para mim, Zoe.

O sorriso que desenhou na sua cara causou-me um novo calafrio.

— Senhora Bennett — corrigi.

Ele levou a mão à cabeça e fingiu tirar um chapéu imaginário. Imediatamente, virou-se e encaminhou-se com Judy e Gideon para a sala que albergava a exposição de joias.

Saí do museu com passo rápido e firme e dirigi-me para o meu carro. À medida que me afastava do edifício, das luzes, das sirenes e do barulho, invadia-me uma sensação de irrealidade e distância que nunca experimentara, como se o acontecido fosse apenas uma brincadeira do meu cérebro ou como se, na verdade, saísse de ver um filme mau e acabassem de acender as luzes.

Sentei-me ao volante e esforcei-me para respirar fundo e recuperar a calma. Não queria ligar a Noah, não tínhamos chegado ao ponto em que partilhávamos vivências e confidências, mas prometera-lhe. Além disso, se fosse sincera comigo própria, também não tinha mais ninguém com quem falar. E precisava de desabafar. Portanto, tirei o telemóvel da mala e marquei o seu número. Como prometera, devia estar à espera da minha chamada, porque atendeu ao primeiro toque.

— Como estás? — perguntou.

— Não sei. É estranho. A minha mente recusa-se a aceitar o que aconteceu, mas vi o corpo do Scott na erva. Bom, não o vi realmente, só as pessoas que o rodeavam. E vi as imagens da sua morte. Foi horrível…

— As câmaras filmaram-no?

— Não exatamente. Vê-se um homem entre as sombras, mas é pouco mais do que uma figura difusa, não se distinguem os traços nem nenhuma característica que ajude a identificá-lo.

— Talvez a polícia possa fazer alguma coisa no seu laboratório para melhorar a imagem — aventurou Noah.

— É possível, mas não acredito. A gravação tem uma qualidade muito medíocre e, se ampliarem a imagem para se aproximarem do indivíduo, só vão conseguir uma coleção infinita de pixels sem forma.

— É uma pena.

— É, sim. — Fiquei em silêncio por uns segundos. — É tudo muito estranho — repeti.

— Em que sentido? — perguntou-me.

— O Scott recebeu uma chamada e saiu para a rua sem avisar o colega. É como se esperasse uma visita ou como se conhecesse a pessoa com que se ia encontrar. Depois, deram-lhe dois tiros. Ele nem sequer tentou defender-se ou fugir. Nada de nada. Ficou ali e morreu. E, depois, há o assunto das joias.

— O que se passa com as joias?

— Se o assassino e o ladrão forem a mesma pessoa, não faz sentido chamar o guarda e matá-lo imediatamente. Se tencionava roubar, o mais lógico teria sido abater o vigilante no interior. Depois dos tiros, seria impossível entrar. O segundo guarda correu, alertado pelo barulho, e ativou o alarme imediatamente.

— Bom, talvez o tenham feito então. Com os dois guardas fora do edifício, conseguiu entrar, roubar as joias e escapulir-se em poucos segundos.

— Impossível — neguei. — Não aparece ninguém nas gravações. Vê-se o segundo guarda a atravessar o museu a correr, mas mais ninguém.

— Alguém conseguiu ultrapassar as medidas de segurança do edifício.

— Sim — reconheci —, e não deve ter-lhe custado muito. O inspetor a cargo da investigação disse que são pouco menos do que uma merda. Praticamente acusou o diretor de convidar os ladrões a entrar. De facto, chegou a insinuar que podem ter contado com ajuda de dentro.

Noah ficou em silêncio durante uns segundos eternos.

— Se pensares bem — disse, finalmente —, isso não é assim tão desatinado e explicaria muitas coisas.

— Não consigo acreditar que alguém do museu esteja envolvido na morte do Scott. Meu Deus… Não consigo esquecer a cara de espanto quando nos viu a sair da oficina esta tarde.

— E falando disso… Contaste a alguém? Refiro-me à nossa pequena incursão.

— Não, a ninguém, mas imagino que tenha de dar explicações quando descobrirem que alguém apagou vários minutos da cassete de vídeo. E, então, tudo terá acabado para mim.

— Não sejas tão dramática. No caso hipotético de descobrirem a manipulação das gravações, coisa que duvido, bastará que te mantenhas calada. Tu não fizeste nada, nem sequer pediste ao Scott para as apagar. Fui eu, lembras-te? E ele demonstrou ser um cavalheiro e acedeu, porque compreendeu que não tinha sentido destruir a tua vida por uma tolice.

— Não sei…

— Onde estás? — perguntou-me, mudando de assunto.

— Atrás do museu, no carro. Vou para casa, embora ache que não vou conseguir dormir.

— Posso encomendar comida e acompanhar-te, parece-te bem?

Ponderei as duas opções que se abriam à minha frente: Passar a noite sozinha, em branco, a roer as unhas ou passá-la junto de Noah, comer alguma coisa, conversar e desabafar.

— Parece-me ótimo.

* * *

Estava há menos de dez minutos em casa quando o som da campainha da porta me assustou. Estava tão perdida nos meus próprios pensamentos que me esquecera de que esperava visitas.

Abri a porta para deixar passar um Noah carregado com dois sacos que tinham um cheiro quente a especiarias, frango e legumes assados.

— Há um restaurante asiático a duas ruas daqui que está aberto vinte e quatro horas e tem verdadeiras delícias no menu para levar.

— Eu sei — reconheci.

A solidão impulsiona as pessoas a fugir da cozinha. Lembro-me da minha mãe, a cantarolar à frente do fogão enquanto fazia um banquete para a sua família extensa. Eu sou filha única, mas ela tinha uma boa coleção de irmãos, sobrinhos, sobrinhos-netos, cunhados e primos que gostavam de se reunir de vez em quando. A minha mãe adorava cozinhar para os outros e, às vezes, eu participava nessa alegria, ajudando-a com os afazeres mais ingratos da elaboração do festim, como cortar batatas, depenar um pato ou saltear os legumes. Gostava de fazer parte desse regozijo, do alarido de sons, cheiros e sabores que invadia a nossa casa quando a família se reunia e a minha mãe cozinhava. Há séculos que não tenho contacto com nenhum deles.

Talvez seja por isso que fujo do fogão como da peste. O que há mais deplorável do que sentar-me sozinha à mesa, à frente de um bife triste e de uma salada? Cozinhá-lo. De certeza que muitos solteiros acham que cozinhar para um não tem nada de mal, que é apenas uma questão de hábito. Eu não consigo habituar-me, deprime-me cozinhar, portanto, durante a semana, costumo comer na cafetaria pequena do museu e, aos fins de semana, encomendo comida para levar em qualquer um dos variados restaurantes que abundam na zona.

Comemos sem falar demasiado. Eram quase duas da madrugada, uma hora muito estranha para jantar, mas não disse nada. Suponho que tenha pensado que Noah fez o que lhe pareceu mais adequado naquele momento. Estava nervosa e chocada e um pouco assustada também. A proximidade da morte e a certeza de que o fim da vida pode alcançar-nos como um raio no momento menos esperado encheram-me a cabeça de ideias lúgubres e lutuosas. Via várias vezes na minha mente todas aquelas pessoas a rodear o cadáver de Scott. Então, não sabia que estava ali, mas, agora, quase conseguia ver os pés lassos na erva e até o carreiro abundante de sangue que deve ter sido produzido pelos dois tiros à queima-roupa.

Petisquei sem vontade a comida que Noah pôs na mesa da cozinha e tentei sorrir algumas vezes, mas os meus pensamentos iam a mil à hora e a minha mente não parava de pensar no que aconteceria a partir de então.

E, depois, havia o meu comportamento dessa tarde na oficina da restauração. Esperava que Scott tivesse eliminado as imagens. Noah garantira-me que o fizera à frente dos seus olhos, mas não podia ter a certeza.

Um calafrio de terror sacudiu-me. Noah aproximou-se de mim e abraçou-me. Foi um gesto protetor que não esperava. Não gostava de me mostrar vulnerável. Estava tão habituada a sobreviver sozinha que até me incomodava que alguém vislumbrasse a mínima fraqueza em mim.

— Sentes-te bem? — perguntou-me.

— Não — reconheci —, não demasiado. Não paro de pensar no Scott e no que vai acontecer a partir de agora.

— A que te referes?

— Não sei… Suponho que a investigação ponha a nossa rotina de pernas para o ar. De facto, nem sequer sei se devo ir trabalhar amanhã.

— Pergunta ao teu chefe — propôs Noah, com uma lógica esmagadora. — Ele saberá se a polícia tem intenção de isolar o museu durante alguns dias ou se os empregados podem ir com normalidade, mesmo que esteja fechado ao público. Ao fim e ao cabo, a tua oficina é longe de onde aconteceu tudo.

Assenti devagar. Ligaria a Gideon de manhã. Poderia dizer-me o que fazer. Ou melhor, apareceria no museu e esperaria pelos acontecimentos. Tudo era melhor do que ficar ali sentada a ver passar o tempo.

Tremi novamente. Estava enjoada e tinha o estômago às voltas.

— Acho que vou deitar-me — anunciei.

Noah olhou para mim e levantou-se. Agarrou-me a cara e beijou-me a ponta do nariz com delicadeza.

— Queres que fique?

— Agradeço, mas não é necessário. É muito tarde e, amanhã, vai ser um dia difícil. Vou tentar descansar um pouco.

— Está bem — acedeu, com um sorriso. — Terei o telemóvel à mão, se precisares de mim.

— Obrigada — agradeci.

Beijámo-nos à porta e foi-se embora. Não me incomodei em arrumar os restos do jantar tardio. Dirigi-me para o meu quarto, despi-me aos pés da cama e deitei-me entre os lençóis depois de verificar se o alarme do despertador estava ligado. Virei as costas à janela para ignorar a luz dos candeeiros, enrosquei-me e invoquei todas as imagens prazenteiras que habitavam na minha mente para afastar o horror que a morte trazia consigo. Não consegui.

Não demorei demasiado a adormecer, mas sonhei com riachos de sangue que desciam velozmente por uma montanha de cadáveres, percorriam os caminhos intrincados de uma paisagem assolada, cheia de pedras e rochas escuras até onde a vista alcançava, e corriam até aos meus pés, onde o sangue parava sem chegar a tocar em mim, formando uma lagoa carmesim plácida. No meu sonho, estava sozinha, não havia nada vivo à minha volta, humano, animal ou vegetal. Completamente sozinha. Rodeada por todo aquele sangue aguado. O que aconteceria se desse um passo em frente? Afundar-me-ia e afogar-me-ia? O meu corpo encher-se-ia de sangue alheio, por dentro e por fora?

Por sorte, o despertador arrancou-me do pesadelo antes de ir mais além. Acordei encharcada em suor, com o lençol enrolado à volta do meu corpo e uma dor de cabeça intensa. Uma forma terrível de começar o primeiro dia do resto da minha vida.

Uma bala com o meu nome

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